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Talento local e disciplina japonesa: a mistura do Brasil no Clássico Mundial de Beisebol
Um jovem que trabalhou como pedreiro para se tornar jogador de beisebol. Um tradutor profissional de japonês para espanhol e português. Três filhos de ex-jogadores de grandes ligas. Um técnico de ascendência japonesa. O 'Team Brasil' é uma mistura de culturas, esforço, disciplina e talento.
É verdade que a seleção brasileira não tem estrelas e sofreu duas derrotas consecutivas para Estados Unidos (15-5) e Itália (0-8) na primeira rodada do Clássico Mundial de Beisebol, disputado em Houston, no Texas, uma das sedes do torneio.
Mas os atletas estão pacientemente construindo uma equipe com ingredientes e idiomas diversos.
E quando se trata de construção, o rebatedor e interbase Osvaldo Carvalho sabe tudo sobre isso. Ele alternou o início de sua carreira no beisebol com um emprego como pedreiro, o que garantiu seu sustento, alternando entre a construção e o vestiário.
"Eu entrava no serviço da manhã, saía às 18h. A concessionária da empresa era perto do clube onde eu sempre treinei, eu ia andando até o clube e treinava das 18h às 20h. Às vezes, no sábado, ia para a academia também, então era puxado", disse Osvaldo em entrevista coletiva.
Ele conta que não foi fácil convencer a família de que seria jogador de beisebol.
"É sempre difícil, meu pai também não queria, falava que esse esporte era japonês, mas falei para ele que eu sempre gostei e nunca, fiquei triste porque eu nunca tinha assinado um contrato, mas mesmo assim tive que continuar jogando, porque eu amo esse esporte", disse depois à AFP
Seu pai não estava totalmente errado. O Japão é o favorito do torneio e já se classificou para a próxima fase. No entanto, se existe um país com a maior comunidade japonesa na América Latina, esse país é o Brasil.
Talvez não seja coincidência que Osvaldo tenha acabado por assinar contrato com o modesto Nikkey Marília, da comunidade japonesa do país.
E a seleção brasileira tem vários sobrenomes japoneses, como os dos arremessadores Daniel Missaki, Sann Omosako, Oscar Nakaoshi e o receptor Enzo Hayashida.
Entre eles está também Bo Takahashi, de 29 anos, natural de Presidente Prudente e arremessador do Saitama Seibu Lions, da Liga Japonesa.
- Estilo próprio -
"Acho que a cultura japonesa, no geral, é famosa pela sua disciplina e pelo respeito ao jogo. Então, acho que isso tem uma grande influência, não só no beisebol japonês, mas também no Brasil, onde temos muitos jogadores com raízes no Japão. Acho que isso é positivo", comentou Takahashi à AFP.
"Gosto do que aprendi do beisebol japonês, americano e latino-americano. É uma mescla de beisebol, mas é o nosso próprio estilo, sem dúvida", acrescentou.
Nas coletivas de imprensa, Takahashi, que também fala inglês e espanhol que aprendeu com seus colegas de time na Liga menor de beisebol, traduz algumas perguntas Osvaldo.
E embora a seleção tenha um tradutor oficial que a acompanha, em campo eles contam com Vitor Ito, interbase e peça fundamental da equipe.
Após sua passagem pelas ligas amadoras e universitárias de beisebol japonesas, Vitor, de 31 anos, também é intérprete oficial na Liga Japonesa, sem deixar de representar o Brasil como atleta.
- Tal pai, tal filho -
Apesar da derrota por 15 a 5 para um gigante como os Estados Unidos na sexta-feira no Daikin Park, o jogador de campo externo de 20 anos Lucas Ramirez acertou dois home runs diante de um elenco repleto de estrelas da Major League Baseball (MLB).
Lucas é filho do ex-jogador de beisebol Manny Ramirez, astro dominicano que atuou por Cleveland Guardians, Boston Red Sox e Los Angeles Dodgers.
A seleção brasileira também conta com Dante Bichette Jr., de 33 anos, filho de Dante Bichette Sr., que disputou 14 temporadas na MLB.
Joseph Contreras, de 17 anos, filho de José Ariel Contreras, ex-arremessador e campeão da World Series de 2005 com o Chicago White Sox e All-Star cubano, é outro que faz parte da equipe.
Ainda estudante universitário, Joseph neutralizou o astro do New York Yankees Aaron Judge com uma bola rápida de 150 km/h, e o Brasil resolveu a situação com uma jogada dupla que salvadora.
"É uma questão de sangue. É mais o sangue brasileiro do que qualquer outra coisa. Somos uma grande família e acho que a harmonia no Brasil é a minha parte favorita, sem dúvida", explicou Dante Bichette Jr.
Em declarações à imprensa, o treinador e ex-jogador de primeira base Yuichi Matsumoto reconheceu a diversidade do seu elenco.
"A comunicação é muito importante para formar um grupo. Não importa se eles vêm do Japão, Estados Unidos, México ou da Venezuela. Esse grupo aqui está bem unido e sempre será".
P.Queiroz--PC