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Kast, o presidente de extrema direita com um plano 'de emergência' para o Chile
Sóbrio, frio, sem estridências, o ultradireitista José Antonio Kast assume nesta quarta-feira (11) a presidência do Chile. Em sua terceira tentativa, este católico devoto chega ao poder com a promessa de um governo "de emergência" e de mão dura para restaurar a segurança e a ordem no país.
Aos 60 anos e pai de nove filhos, Kast é um advogado ultraconservador sem reservas: rejeita o aborto mesmo em casos de estupro, a pílula anticoncepcional de emergência, o divórcio, o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a eutanásia.
Ele está há 30 anos na política sem os gestos extravagantes de outros radicais como o brasileiro Jair Bolsonaro ou o argentino Javier Milei, com quem costuma ser comparado.
"Ele é muito mais conservador como personagem e não tem uma personalidade muito carismática", disse à AFP Robert Funk, professor de ciência política da Universidade do Chile.
Seus feitos como deputado se limitam à aprovação de leis que permitiram instalar estátuas, vender óculos para presbiopia sem receita médica e regular loterias.
Admirador da ditadura imposta por Augusto Pinochet (1973-1990), conquistou o apoio de chilenos com a promessa de enfrentar diretamente a criminalidade e deportar quase 340.000 migrantes em situação irregular, em sua maioria venezuelanos.
A percepção de insegurança supera em muito as evidências de que o Chile seja um país dominado pelo crime, apesar do aumento de delitos nos últimos anos.
"Este governo gerou caos, desordem e insegurança. E nós vamos na direção contrária", afirmou Kast durante a campanha.
Ele foi eleito em meio a uma onda conservadora que atravessa a América Latina e após a segunda vitória de Donald Trump nos Estados Unidos.
- Blindado e com revólver -
O fundador do Partido Republicano realizou vários atos de campanha atrás de um vidro blindado e revelou que possuía um revólver com cinco balas.
Ainda assim, "ele parece muito sóbrio, muito pragmático, muito pausado e muito calmo em comparação com o restante" dos líderes de extrema direita com quem é comparado, afirmou a jornalista Amanda Marton, coautora do livro "Kast, a ultradireita à chilena".
Ele é casado com María Pía Adriasola. Em 2017, sua esposa relatou em uma entrevista que Kast a proibiu de usar pílulas anticoncepcionais.
Kast é o caçula de dez filhos de um casal de alemães que emigrou para o Chile e criou um próspero negócio de embutidos que ele herdou.
Investigações jornalísticas revelaram em 2021 que seu pai foi membro do partido nazista de Adolf Hitler.
Kast afirmou, porém, que ele foi recrutado à força pelo exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial e negou que fosse nazista.
Sua chegada ao poder representa a primeira vitória da ultradireita desde o fim da ditadura.
- Moderado? -
Sempre bem-apresentado, deixou escapar ocasionalmente um sorriso em momentos de tensão nos debates desta campanha.
Embora costume manter a calma, pode ser autoritário, segundo ex-colaboradores.
"Ou você está com ele, ou ele está contra você", recorda à AFP Lily Zúñiga, que trabalhou com ele na União Democrata Independente (UDI), partido do qual fez parte por duas décadas.
"Ele sente que não nasceu para coisas menores", acrescenta.
Kast deixou a legenda em 2016 porque, segundo ele, ela deixou de "transmitir as ideias" que defende.
Três anos depois, fundou o Partido Republicano, que dirige com uma combinação de "simpatia pessoal" e "forte controle", segundo Javiera González, coautora do livro "Kast, o messias da direita chilena".
Sua porta-voz de campanha, Mara Sedini, destaca sua "ética de trabalho". "Nas coisas em que precisa ser teimoso, ele é teimoso", mas também é capaz de "flexibilizar e ir aprendendo", acrescenta.
Na última campanha, relegou a agenda social conservadora que lhe custou votos em 2021 para se concentrar na segurança e atacar a migração, que considera um complô da "esquerda radical" para pôr fim às liberdades.
"Há quem diga que ele moderou o discurso, mas não o moderou. Simplesmente evitou tudo o que poderia lhe custar votos", afirma Claudia Heiss, analista política da Universidade do Chile.
Com sua ampla vitória eleitoral, Kast se vingou de duas derrotas anteriores. "Quantas vezes nos disseram que era impossível, que não conseguiríamos?", disse. "Alguns riam, nos subestimavam e outros até nos desprezaram", afirmou durante a disputa.
F.Cardoso--PC