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A caminho do Paquistão, vice-presidente dos EUA insta Irã a 'não enganar' Washington
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, partiu, nesta sexta-feira (10), rumo a Islamabad e fez um apelo ao Irã para que "não enganasse" Washington, em meio a fortes divergências e acusações mútuas de não respeitar o acordo de cessar-fogo.
Desde que a trégua de duas semanas foi acertada, Teerã e Washington têm apresentado versões contraditórias sobre se o Líbano está ou não incluído no acordo: o Irã afirma que sim e os Estados Unidos, que não. Israel, por sua vez, declara-se determinado a continuar combatendo o movimento islamista pró-iraniano Hezbollah.
Na quarta-feira, mais de 300 pessoas morreram nestes ataques no Líbano, que foram os mais mortais desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, com os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Na sexta-feira, oito membros das forças de segurança do Líbano morreram em ataques no sul do país, segundo a agência de notícias estatal libanesa Tasnim.
Para o Irã, tais diálogos dependerão se o cessar-fogo é respeitado "em todas as frentes, particularmente no Líbano", insistiu o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei.
Quando o cessar-fogo foi anunciado, o Paquistão, que atua como mediador, havia assegurado que a trégua se aplicaria "em todos os lugares, inclusive no Líbano", o que foi desmentido por israelenses e americanos pouco depois.
- "Negociar de boa-fé" -
Aguardando a chegada dos negociadores, Islamabad se transformou em uma cidade fantasma sob forte esquema de segurança. Os diálogos estão previstos para acontecer em um hotel de luxo.
Um grande painel com os dizeres "Negociações em Islamabad, abril de 2026" se destacava em uma ponte sobre uma rodovia da capital, acompanhado de bandeiras dos Estados Unidos e do Irã.
O Paquistão havia convidado as delegações para se reunirem nesta sexta-feira, mas JD Vance só chegará no sábado de manhã.
"Vamos tentar manter uma negociação positiva", declarou JD Vance aos jornalistas antes da decolagem na Base Conjunta Andrews.
"Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa-fé, nós, evidentemente, estamos dispostos a estender a mão aberta. Se tentarem nos enganar, então verão que a equipe de negociação não é tão receptiva", advertiu.
O vice-presidente, que segundo o jornal The New York Times se opõe à ofensiva dos EUA no Irã, lidera a comitiva americana ao lado do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump.
No Irã, não está claro se uma delegação de Teerã partirá rumo a Islamabad. "A informação divulgada por alguns meios, segundo a qual uma equipe de negociadores iranianos teria chegado a Islamabad (...) é totalmente falsa", informou a agência de notícias Tasnim.
O veículo ressaltou que "as negociações estão suspensas" enquanto não for respeitado "o cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques".
Vários iranianos expressaram à AFP suas dúvidas, como um morador de Teerã, de 30 anos, sob condição de anonimato.
"Não deveríamos levar Trump tão a sério. Ele quer apagar uma civilização do mapa e, 12 horas depois, estabelece um cessar-fogo que não se baseia em nada", resume.
- Negociações sobre o Líbano -
Em paralelo às tratativas entre Irã e Estados Unidos, conversações entre o Líbano e Israel devem ocorrer em Washington na próxima semana, segundo um funcionário americano.
Pouco antes, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou que havia ordenado a abertura de "negociações diretas" com Beirute.
Tratava-se de uma iniciativa que o Hezbollah rejeitou. Nesta sexta-feira, seu líder, Naim Qassem, fez um apelo aos dirigentes libaneses para que não fizessem "concessões gratuitas" a Israel.
Por sua vez, as Nações Unidas, que manifestaram preocupação com o rápido aumento da insegurança alimentar no Líbano, criticaram o fato de Israel continuar bombardeando o país.
O Líbano foi arrastado para a guerra no Oriente Médio em 2 de março, quando o Hezbollah disparou foguetes contra o território israelense em represália à morte do ex-líder supremo do Irã Ali Khamenei, em um bombardeio no primeiro dia da ofensiva de Israel e dos EUA.
Nesta sexta-feira, Israel voltou a ser alvo de foguetes lançados a partir do Líbano, e o Exército israelense retomou os bombardeios ao sul deste país.
- Reivindicações opostas -
Mesmo que eventualmente as delegações se sentem à mesa de negociações, posições opostas em questões-chave dificultam um acordo.
O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã descartou restringir o enriquecimento de urânio, uma das principais exigências de Israel e dos EUA, que temem que Teerã consiga a arma nuclear.
Também não se vê uma saída fácil para a situação no Estreito de Ormuz, por onde passava 20% do petróleo mundial antes dos conflitos.
Embora sua reabertura fosse uma das condições do cessar-fogo, desde sua implementação poucos navios o atravessaram.
Em uma sequência de mensagens nas redes sociais, Trump acusou na quinta-feira o Irã de estar fazendo um "péssimo trabalho" em relação à reabertura de Ormuz e de descumprir os termos do acordo.
Dada a fragilidade da trégua, prevalece a cautela nos mercados, onde o petróleo subiu ligeiramente nesta sexta-feira, embora ainda esteja abaixo de 100 dólares (R$ 508, na cotação atual).
A.P.Maia--PC