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Irã levanta dúvidas sobre negociações com EUA no Paquistão
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, exigiu um cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio dos ativos iranianos antes de qualquer negociação de paz com os Estados Unidos, lançando dúvidas sobre as conversas no Paquistão, nas quais o vice-presidente americano, JD Vance, deve participar.
"Duas das medidas acordadas entre as partes ainda precisam ser implementadas: um cessar-fogo no Líbano e o desbloqueio dos ativos do Irã, antes do início das negociações", declarou Ghalibaf em inglês em sua conta no X.
Pouco antes, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, pediu ao Irã para que "não enganasse" Washington, em meio a fortes divergências e acusações mútuas de não respeitar o acordo de cessar-fogo.
Desde que a trégua de duas semanas foi acertada, Teerã e Washington têm apresentado versões contraditórias sobre se o Líbano está ou não incluído no acordo: o Irã afirma que sim e os Estados Unidos, que não. Israel, por sua vez, declara-se determinado a continuar combatendo o movimento islamista pró-iraniano Hezbollah.
Na quarta-feira, mais de 300 pessoas morreram nestes ataques no Líbano, que foram os mais mortais desde o início da guerra no Oriente Médio, em 28 de fevereiro, com os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã.
Nesta sexta-feira, 13 membros das forças de segurança do Líbano morreram em ataques no sul do país, segundo a agência de notícias estatal libanesa.
O porta-voz da Chancelaria iraniana, Esmaeil Baqaei, afirmou que as negociações dependerão de o cessar-fogo ser respeitado "em todas as frentes, particularmente no Líbano".
Quando a trégua foi anunciada, o Paquistão, que atua como mediador, assegurou que se aplicaria "em todos os lugares, inclusive no Líbano", o que foi desmentido por israelenses e americanos.
- "Negociar de boa-fé" -
Aguardando a chegada dos negociadores, Islamabad se transformou em uma cidade fantasma sob forte esquema de segurança, enquanto os diálogos estão previstos para acontecer em um hotel de luxo.
O Paquistão havia convidado as delegações para se reunirem nesta sexta-feira, mas JD Vance só chegará no sábado de manhã.
"Vamos tentar manter uma negociação positiva", declarou JD Vance aos jornalistas antes da decolagem na Base Conjunta Andrews, em Washington.
"Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa-fé, nós, evidentemente, estamos dispostos a estender a mão aberta. Se tentarem nos enganar, então verão que a equipe de negociação não é tão receptiva", advertiu.
O vice-presidente, que segundo o jornal The New York Times se opõe à ofensiva dos EUA no Irã, lidera a comitiva americana ao lado do enviado especial Steve Witkoff e de Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump.
No Irã, não está claro se uma delegação de Teerã partirá rumo a Islamabad.
"A informação divulgada por alguns meios, segundo a qual uma equipe de negociadores iranianos teria chegado a Islamabad (...), é totalmente falsa", informou a agência de notícias Tasnim.
O veículo ressaltou que "as negociações estão suspensas" enquanto não for respeitado "o cessar-fogo no Líbano e o regime sionista continuar seus ataques".
Vários iranianos expressaram à AFP suas dúvidas, como um morador de Teerã, de 30 anos, sob condição de anonimato.
"Não deveríamos levar Trump tão a sério. Ele quer apagar uma civilização do mapa e, 12 horas depois, estabelece um cessar-fogo que não se baseia em nada", resume.
- Negociações sobre o Líbano -
Em paralelo às tratativas entre Irã e Estados Unidos, conversações entre o Líbano e Israel devem ocorrer em Washington na próxima semana, segundo um funcionário americano.
Pouco antes, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou que havia ordenado a abertura de "negociações diretas" com Beirute, uma iniciativa que o Hezbollah rejeitou.
Nesta sexta-feira, seu líder, Naim Qassem, fez um apelo aos dirigentes libaneses para que não fizessem "concessões gratuitas" a Israel.
O Líbano foi arrastado para a guerra no Oriente Médio em 2 de março, quando o Hezbollah disparou foguetes contra o território israelense em represália à morte do ex-líder supremo do Irã Ali Khamenei, em um bombardeio no primeiro dia da ofensiva de Israel e dos EUA.
- Reivindicações opostas -
Mesmo que eventualmente as delegações se sentem à mesa de negociações, posições opostas em questões-chave dificultam um acordo.
O chefe da Organização de Energia Atômica do Irã descartou restringir o enriquecimento de urânio, uma das principais exigências de Israel e dos EUA, que temem que Teerã consiga a arma nuclear.
Também não se vê uma saída fácil para a situação no Estreito de Ormuz, por onde passava 20% do petróleo mundial antes dos conflitos.
Embora sua reabertura fosse uma das condições do cessar-fogo, desde sua implementação poucos navios o atravessaram.
Em uma sequência de mensagens nas redes sociais, Trump acusou na quinta-feira o Irã de estar fazendo um "péssimo trabalho" em relação à reabertura de Ormuz e de descumprir os termos do acordo.
Dada a fragilidade do cessar-fogo, a cautela reinou nos mercados financeiros, que permaneceram cautelosamente equilibrados ou registraram ligeiros ganhos, enquanto o preço do petróleo se estabilizou abaixo de 100 dólares (R$ 508 na cotação atual).
P.Cavaco--PC