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Camponeses marcham em La Paz e governo denuncia ameaça à democracia da Bolívia
Centenas de camponeses indígenas e transportadores marcham nesta quarta-feira (20) nas ruas da capital política da Bolívia, cujo governo denunciou que os manifestantes que exigem a renúncia do presidente de centro-direita Rodrigo Paz buscam alterar a democracia.
Há três semanas, camponeses, operários, mineiros e outros trabalhadores pressionam Paz, com apenas seis meses no poder, com fortes manifestações e bloqueios de estradas, em um momento em que o país atravessa sua pior crise econômica em quatro décadas.
Agitando bandeiras indígenas, os camponeses aimarás e os transportadores avançam ao meio-dia pelas ruas de La Paz, sem entrar em confronto com a polícia que protege os acessos à praça de armas, onde fica o palácio do governo.
"Este governo tem que ir embora. Se não quiser que sangue seja derramado, que saia pacificamente", disse à AFP Romer Cahuaza, transportador do sul de La Paz que, na marcha, reivindica um melhor abastecimento de combustíveis.
Ao intervir virtualmente nesta quarta-feira, de La Paz, em uma sessão da OEA, o chanceler boliviano, Fernando Aramayo, denunciou grupos nos protestos que buscam enfraquecer o governo e alterar a "ordem democrática e constitucional".
"Não vamos negociar nem dialogar com quem está pedindo a renúncia do presidente", porque "isso é uma afronta à democracia", afirmou mais tarde Aramayo em entrevista coletiva.
O governo assegura que os protestos são orquestrados pelo ex-presidente socialista Evo Morales, foragido da Justiça por um caso de suposto tráfico de uma menor.
- "Já não comemos carne" -
Pelo menos 44 pontos de bloqueio são registrados em todo o país, segundo a administração estatal de estradas, o que agravou a escassez de alimentos, combustíveis e medicamentos na cidade de La Paz, onde as principais vias de acesso foram tomadas.
Os bloqueios "afetam não apenas os mercados, afetam todo mundo, mas menos os ricos (...) Nós, toda essa gente que não tem dinheiro, já não comemos carne", lamentou Julio Pérez, ex-motorista desempregado de 82 anos.
O governo foi obrigado a estabelecer uma ponte aérea, com voos saindo de Santa Cruz (leste) e Cochabamba (centro), para abastecer a cidade andina com carnes e vegetais.
"Estamos muito preocupados com essa questão e fazendo as compras que é possível fazer, tudo aumentou", declarou à AFP Fernando Carvajal, funcionário bancário de 67 anos.
O governo também anunciou um próximo "corredor humanitário" nas estradas bloqueadas, o que implica uma operação policial para desativar os protestos e permitir a passagem de cargas.
A Bolívia atravessa sua crise econômica mais grave desde a década de 1980. O país esgotou suas reservas de dólares para sustentar uma política de subsídios aos combustíveis, que o presidente Paz eliminou em dezembro, e sua inflação anualizada foi de 14% em abril.
- "Interferência" -
Em meio à tensão, a chancelaria anunciou nesta quarta-feira a expulsão da embaixadora da Colômbia, Elizabeth García, após considerar que o presidente Gustavo Petro incorreu em uma "interferência direta" nos assuntos da Bolívia.
Petro havia classificado os protestos como uma "insurreição popular" e, nesta quarta-feira, em declarações à rede colombiana Caracol Radio ao reagir à expulsão de sua embaixadora, afirmou que a Bolívia está "caminhando para extremismos".
"A Bolívia, tal como está neste momento, merece que se abra a um grande diálogo nacional (...), ou a consequência pode ser um massacre da população", acrescentou o presidente colombiano.
Na terça-feira, o governo de Paz, novo aliado do presidente Donald Trump, recebeu um apoio público dos Estados Unidos. O subsecretário de Estado, Christopher Landau, expressou sua solidariedade e disse que a Bolívia enfrenta um "golpe de Estado".
A chegada de Paz ao poder pôs fim a 20 anos de governos socialistas liderados por Morales e Luis Arce (2020-2025).
V.F.Barreira--PC