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Espanha exuma fundador da Falange do antigo mausoléu de Franco
Os restos mortais do fundador da Falange, partido de inspiração fascista que foi um dos pilares do franquismo, foram exumados nesta segunda-feira (24) do mausoléu onde esteve sepultado o ditador Francisco Franco, em "mais um passo" segundo o governo de esquerda, no trabalho de memória sobre a Guerra Civil e a ditadura.
O caixão de Primo de Rivera (1903-1936) será transferido para o cemitério de San Isidro, em Madri, onde foram enterrados vários integrantes de sua família.
A polícia isolou os acessos ao cemitério. Alguns ativistas de extrema-direita se reuniram no local.
Filho do ditador Miguel Primo de Rivera, que governou a Espanha de 1923 a 1930, o fundador da Falange foi executado pelos republicanos em novembro de 1936, no início da Guerra Civil espanhola (1936-1939), que começou após uma revolta dos militares, incluindo o general Francisco Franco, contra o governo republicano eleito de maneira democrática.
De inspiração fascista, o partido Falange foi um dos pilares do franquismo, ao lado da Igreja Católica e do exército.
A exumação, que acontece três anos e meio depois do processo com os restos mortais de Franco, é consequência da entrada em vigor, em outubro, da lei conhecida como "Memória Democrática", que, entre outras coisas, pretende transformar o antigo mausoléu em um local de memória sobre o período sombrio.
"É mais um passo para que nenhuma pessoa seja enaltecida, nenhuma ideologia que evoque a ditadura", afirmou na semana passada o ministro da Presidência, Félix Bolaños.
"A democracia espanhola não merece lugares como o 'Vale dos Caídos'", acrescentou.
A família Primo de Rivera, que negociou as condições da exumação com o governo, escolheu a data porque corresponde ao 120º aniversário do nascimento do fundador da Falange.
Desde que chegou ao poder em 2018, o primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez estabeleceu como prioridade a indenização das vítimas da Guerra Civil e da ditadura de Franco (1939-1975).
Após anos de batalha judicial com a família, em 2019 o governo conseguiu exumar os restos mortais de Franco do 'Vale dos Caídos' para que este mausoléu, que não tem equivalente em outros países da Europa ocidental que também sofreram com ditaduras, não continuasse como um "local de apologia" do franquismo.
Franco e Primo de Rivera foram enterrados a cada lado do altar da basílica.
Pedro Sánchez também transformou a busca pelos desaparecidos republicanos da Guerra Civil, muitos em valas comuns, em uma "responsabilidade de Estado".
Encomendada por Franco em 1940 para celebrar sua "gloriosa cruzada" católica contra os republicanos "sem Deus", o 'Vale dos Caídos' fica a quase 50 quilômetros de Madri. Rebatizado pelo governo como 'Valle de Cuelgamuros', sua construção por milhares de presos políticos durou quase 20 anos.
Dominada por uma cruz de 150 metros de altura, a basílica é visível a dezenas de quilômetros de distância.
Em nome de uma pretendida "reconciliação nacional", Franco ordenou a transferência dos corpos de mais de 30.000 vítimas da Guerra Civil, franquistas mas também republicanos, de cemitérios e valas comuns sem informar as famílias.
- Divisões -
Os restos mortais das vítimas republicanas, reivindicados por suas famílias, também devem ser exumados, mas o processo foi adiado devido a uma batalha judicial.
Em novembro, as autoridades espanholas também exumaram os restos mortais de um comandante militar franquista, o general Queipo de Llano, da basílica de Macarena, em Sevilha. Este general é considerado responsável por milhares de execuções no sul da Espanha após a revolta militar de 1936, incluindo a do poeta Federico García Lorca.
A memória sobre a Guerra Civil e a ditadura ainda divide a Espanha, onde as feridas do passado nunca foram cicatrizadas por completo e a direita acusa a esquerda de reabri-las.
No governo, "querem começar novamente a profanar túmulos, querem começar outra vez a desenterrar o ódio", declarou na quinta-feira o líder do partido de extrema-direita Vox, Santiago Abascal.
M.A.Vaz--PC