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Estudo mostra que crianças conseguem lembrar de mais coisas do que se acreditava
Os primeiros anos dos humanos são um período de aprendizado rápido, mas normalmente não conseguimos nos lembrar de experiências específicas dessa época, um fenômeno conhecido como amnésia infantil.
Um novo estudo publicado nesta quinta-feira (20) na prestigiosa revista científica Science desafia as suposições sobre a memória infantil, demonstrando que a mente dos jovens é capaz de formar lembranças.
A pergunta, no entanto, segue sendo porque estas lembranças se tornam difíceis de recuperar mais adiante na vida.
"Sempre fui fascinado por este misterioso vazio na nossa história pessoal", disse à AFP Nick Turk-Browne, professor de psicologia em Yale e principal autor do estudo.
Por volta de um ano de idade, as crianças se tornam aprendizes extraordinários: adquirem linguagem, andam, reconhecem objetos, compreendem os vínculos sociais e muito mais.
"No entanto, não lembramos nenhuma destas experiências, pois existe uma espécie de desajuste entre essa incrível plasticidade e nossa capacidade de aprendizado", afirmou.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, sugeriu a hipótese de que as primeiras lembranças são reprimidas, ainda que desde então a ciência tenha descartado em grande medida a ideia de um processo de supressão ativa.
As teorias modernas se centram no hipocampo, área do cérebro crucial para a memória episódica, que não se desenvolve completamente na infância.
Turk-Browne sentiu-se intrigado com as pistas de estudos comportamentais anteriores.
Visto que os bebês não conseguem comunicar verbalmente as lembranças antes de adquirirem a linguagem, sua tendência a observar objetos familiares por mais tempo dá pistas importantes.
Estudos recentes com roedores que monitoram a atividade cerebral também demonstraram que os engramas (padrões de células que armazenam lembranças) se formam no hipocampo infantil, mas se tornam inacessíveis com o tempo, embora possam ser reativados artificialmente mediante uma técnica que usa luz para estimular os neurônios.
Até agora, combinar as observações de crianças pequenas com imagens cerebrais estava fora do alcance, pois bebês são sabidamente pouco cooperativos quando se trata de ficarem quietos dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI), o dispositivo que rastreia o fluxo sanguíneo para "ver" a atividade cerebral.
- Padrões psicodélicos -
Para superar este desafio, a equipe de Turk-Browne usou métodos que seu laboratório aperfeiçoou ao longo dos anos: trabalhar com famílias para incorporar chupetas, cobertores e bichos de pelúcia; manter os bebês estáveis com almofadas para que não se mexam; e usar padrões psicodélicos de fundo para prender sua atenção.
O movimento inevitável produziu, no entanto, imagens borradas que tiveram que ser descartadas, mas a equipe solucionou o problema realizando centenas de sessões.
No total, participaram da experiência 26 bebês (sendo a metade de menores de um ano e a outra metade, maiores). Eles tiveram o cérebro escaneado durante uma tarefa de memória, um exercício de estudo para adultos adaptado para eles.
Primeiro, mostrou-se aos bebês imagens de rostos, cenas e objetos. Depois, após verem outras imagens, exibiu-se uma que já tinham visto antes junto com uma nova.
"Quantificamos o tempo que passaram olhando o que já tinham visto e essa é uma medida de sua memória para essa imagem", explicou Turk-Browne.
Ao comparar a atividade cerebral durante a formação bem-sucedida de lembranças com a de imagens esquecidas, os pesquisadores confirmaram que o hipocampo participa ativamente da codificação da memória desde a tenra idade.
Isto foi visto em 11 dos 13 bebês maiores de um ano, mas não nos menores.
Eles também descobriram que os bebês com melhor rendimento em tarefas de memória apresentaram uma atividade maior no hipocampo.
"Podemos concluir com precisão que os bebês têm a capacidade de codificar lembranças episódicas no hipocampo desde aproximadamente um ano de idade", afirmou Turk-Browne.
- Lembranças apagadas -
"A ingenuidade de sua abordagem experimental não deve ser subestimada", escreveram os pesquisadores Adam Ramsaran e Paul Frankland em um editorial da Science.
Mas o que segue sem resposta é o que acontece com estas lembranças remotas.
Talvez nunca se consolidem por completo no longo prazo ou talvez persistam, mas se tornem inacessíveis.
Turk-Browne suspeita da segunda hipótese e agora está encarregado de um novo estudo que avalia se bebês e crianças pequenas conseguem reconhecer videoclipes gravados de sua própria perspectiva quando eram bebês.
Os primeiros resultados provisórios sugerem que estas lembranças poderiam persistir até cerca dos três anos antes de desaparecerem.
Turk-Browne se diz intrigado especialmente com a possibilidade de que estes fragmentos possam ser reativados algum dia em etapas posteriores da vida.
E.Ramalho--PC