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China expande centros de dados para o interior do país como forma de impulsionar IA
Na montanhosa província de Guizhou, um conjunto de edifícios de estilo europeu, com uma torre de relógio e uma ponte com vários arcos, emite um zumbido baixo e constante, uma pista de sua identidade inesperada como o maior centro de dados da gigante tecnológica Huawei.
O complexo, que parece uma pequena cidade, é único em seu design, mas não em sua localização. Nos últimos anos, dezenas de centro de dados foram construídos nesta província do sudoeste.
Eles fazem parte de uma estratégia governamental que levou grande parte da infraestrutura digital necessária para o vertiginoso desenvolvimento da inteligência artificial (IA) na costa leste da China a se estabelecer no oeste do país, uma região rural e menos populosa.
O país está quase dobrando a capacidade de seus centros de dados para os próximos cinco anos, à medida que se intensifica a competição tecnológica com os Estados Unidos e outras nações tentam evitar uma crise que poderia frear a expansão da IA.
Os projetos transformaram algumas áreas, como a Nova Área de Guian, onde estão localizados os data centers da Huawei e outros.
"Costumava ser uma montanha árida, mas desde que a região foi desenvolvida, o transporte ficou mais conveniente, o comércio foi reativado e surgiram oportunidades de negócio", disse o comerciante local Shu Peihua.
Na Europa e nos Estados Unidos, a construção destas instalações muitas vezes enfrenta resistência por parte das comunidades locais, que manifestam preocupações com os preços da energia, as questões ambientais, o consumo de água e a poluição sonora.
Na China, a dissidência é rigidamente controlada. Ainda assim, os moradores de Guian que falaram com a AFP em julho mostraram-se positivos em relação às mudanças em sua região.
"Todos os moradores do nosso bairro agora encontram trabalho aqui perto, ao contrário de antes, quando precisavam ir para outros lugares", ressaltou o morador Li Xixiu.
Um vendedor que preferiu não se identificar relatou, por sua vez, que duas universidades já haviam sido fundadas.
- Impulso econômico "limitado" -
Em 2021, o governo deu um nome à sua estratégia: "Dados do Leste, Computação do Oeste".
A lógica de construir em lugares como Guizhou, com seu clima mais fresco, abundante energia renovável e disponibilidade de espaço, responde a várias frentes.
O processamento de IA consome muita energia, e a China determinou que os centros de dados obtenham 80% de sua eletricidade de fontes renováveis até o fim desta década.
Isso torna regiões como Guizhou e Mongólia Interior, que ampliaram enormemente sua capacidade de geração de energia renovável, como solar e eólica, ideais para os operadores, disse Simeng Deng, analista sênior da Rystad Energy.
O desenvolvimento de zonas rurais anteriormente negligenciadas é outro benefício potencial. Contudo, apesar do entusiasmo de alguns moradores, pesquisadores questionam os retornos econômicos gerais para as regiões.
Os data centers não geram necessariamente um "enorme efeito de difusão" no emprego local, observou Andrew Stokols, da Universidade de Administração de Singapura. "A esperança é que seja possível usar os centros de dados como motor para um desenvolvimento digital mais amplo (...) atraindo indústrias que se instalarão em torno deles", explicou.
Guizhou registrou uma taxa média anual de crescimento do PIB de 7,4% na última década, mas sua evolução salarial no mesmo período ficou em penúltimo lugar em nível nacional, segundo o Instituto de Pesquisa para a Democracia, a Sociedade e as Tecnologias Emergentes (DSET).
"Esse contraste sugere que, embora os centros de dados gerem um forte investimento em terrenos e equipamentos, seu impacto no aumento da renda local per capita continua limitado", explicaram os pesquisadores do DSET Cartus Bo-Xiang You e Angela Glowacki.
Esse investimento maciço em infraestrutura, juntamente com os incentivos políticos para atrair construtoras, levou Guizhou a ter uma das maiores cargas de dívida do país.
No entanto, a demanda por capacidade de processamento de dados, à medida que os países competem pela supremacia tecnológica, significa que a construção continuará.
V.Dantas--PC