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Trânsito anárquico faz mortes dispararem nas ruas da Venezuela
Brunilde García, 65 anos, está milagrosamente viva. Um motorista a atropelou e a deixou caída na rua antes de ir parar no pronto-socorro de um hospital público em Caracas, onde essas cenas são cada vez mais comuns.
A Venezuela foi um dos países mais violentos do mundo, com mais de 8.500 homicídios qualificados em 2018, de acordo com dados do Ministério Público, que registrou 1.338 em 2024, cerca de 90% a menos. Os especialistas atribuem a queda à ocupação policial de favelas perigosas e à migração em massa.
Mas enquanto os homicídios caíram, as mortes relacionadas ao trânsito dispararam.
É normal dirigir na contramão e nas calçadas, não respeitar a distância, não usar cinto de segurança, acelerar nos sinais amarelos, pisar nas faixas de pedestres e até permitir que crianças andem de motocicleta nas rodovias.
“São coisas de um assassino ao volante”, disse o procurador-geral da Venezuela, Tarek William Saab, que lançou a campanha ‘Dirija pela Vida’ para reduzir a impunidade e alertar sobre as consequências da imprudência.
O “objetivo é reduzir ao mínimo os acidentes de trânsito com vítimas fatais”, disse Saab à AFP, observando que em quatro anos o número de homicídios culposos (não intencionais) no trânsito dobrou: de 989 casos em 2020 para 1.955 em 2024.
Toda semana, entre 40 e 50 pessoas feridas em acidentes de carro são internadas no Hospital Pérez de León, o principal centro público de trauma de Caracas, onde Brunilde García chegou com pelo menos três fraturas.
“Ela foi atropelada por uma motocicleta e o veículo fugiu”, lamenta sua filha Evelin Mendoza. “As pessoas não têm consciência".
Em qualquer dia em Caracas: enxames de motocicletas passam em alta velocidade, buzinando entre os carros presos em engarrafamentos.
Em um país com um sistema de transporte público muito ruim, a motocicleta é o veículo preferido. Uma nova pode custar entre 900 e 2.000 dólares (entre R$ 5.100 e R$ 11.450) e, em muitos casos, as concessionárias oferecem financiamento.
Somente em 2024, a ONG Observatorio de Seguridad Vial contabilizou 3.637 acidentes de trânsito em todo o país, com 1.373 mortes, incluindo 579 motociclistas. “A maioria deles tem menos de 26 anos de idade... é lamentável”, diz Rosibel González, coordenadora da organização.
Jairo Patiño, um farmacêutico de 29 anos, caiu de sua motocicleta quando o motorista de uma caminhonete cruzou abruptamente sua pista e o atingiu. “Eu poderia ter ficado paralítico”, diz ele.
“Os acidentes rodoviários estão se tornando um problema de saúde pública”, diz Luis Ustáriz, um paramédico de 25 anos que trabalha com emergências rodoviárias e que, alguns minutos antes, ajudou um motociclista que bateu com o capacete no para-brisa de um carro.
P.Mira--PC