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Documentários indicados ao Oscar dissecam problemas sociais dos EUA
Das tensões raciais ao vazio deixado pelas vítimas de ataques a tiros nas escolas, passando pelo acesso ao aborto e pelos desafios do sistema carcerário, os documentários indicados ao Oscar tocam em temas sensíveis da sociedade americana.
Vários diretores, tanto de longas quanto de curta-metragens, destacaram o poder do audiovisual para abrir o debate, assim como a influência de uma indicação da Academia para dar visibilidade a produções muitas vezes independentes.
"Toda arte é política, e a arte é a vanguarda da revolução", disse à AFP Geeta Gandbhir, cujo filme, "A Vizinha Perfeita", disputa o Oscar de melhor documentário de longa-metragem.
O filme, disponível na Netflix, aborda a violência armada e o racismo através de uma disputa em um bairro da Flórida que escala de forma letal.
"As produções indicadas são profundamente políticas (...) Todas têm algo a dizer sobre assuntos urgentes", acrescentou.
Gandhbhir também está indicada a um Oscar por seu curta documental "O Diabo Não Tem Descanso".
Rodado em Atlanta, o filme trata do acesso ao aborto nos Estados Unidos, que ficou sem amparo constitucional após a sentença da Suprema Corte em 2022.
Sua codiretora, Christalyn Hampton, disse que o objetivo foi "humanizar um tema quente".
O curta tem como protagonista uma mulher religiosa que, encarregada da segurança de uma clínica de saúde reprodutiva, se vê obrigada tanto a proteger as pacientes quanto a enfrentar manifestantes religiosos contrários ao procedimento.
"Sentimos que era uma guinada muito interessante e irônica", comentou à AFP Hampton, que espera que o filme impulsione as mulheres a defenderem sua saúde para além das pressões políticas.
- "Um assunto humano" -
Com uma abordagem mais intimista, o diretor Joshua Seftel e o jornalista Steve Hartman apresentam seu curta documental, "All the Empty Rooms" (Todos os quartos vazios, em tradução livre), que mostra os quartos vazios de crianças e jovens mortos em ataques a tiros em escolas dos Estados Unidos.
"Não é um assunto político, é humano", disse Seftel à AFP. "Isto é algo em que todos estamos de acordo, todos queremos que nossos filhos estejam seguros na escola", acrescentou.
Para Hartman, entrar nestes espaços pessoais ajuda a que o país "sinta essa perda" e libere o debate de matizes políticos.
Com uma abordagem similar, Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman abriram uma janela ao sistema carcerário dos Estados Unidos em seu filme documental "Alabama: Presos do Sistema".
"Temos cerca de duas milhões de pessoas encarceradas, portanto é algo que não se pode realmente evitar", disse Jarecki à AFP.
"Mas as prisões fazem tudo o que podem para manter a imprensa e os cineastas distanciados", acrescentou.
Para os cineastas, é crucial enfrentar este bloqueio. "Entender e ver o que realmente acontece ali é o primeiro passo para melhorar as coisas", comentou.
- "Agressões" -
O papel do jornalismo e os riscos crescentes que seus profissionais enfrentam são o eixo de "Armed Only with a Camera: The Life and Death of Brent Renaud" (Armado apenas com uma câmera: vida e morte de Brent Renaud, em tradução livre), sobre o repórter americano assassinado em 2022, enquanto cobria a invasão russa da Ucrânia.
"Tristemente, segundo o Comitê para a Proteção dos Jornalistas, este é o período mais mortal de que se tem registro para exercer o jornalismo", disse à AFP seu irmão e diretor, Craig Renaud.
O produtor Juan Arredondo acrescentou que a proposta do projeto foi sensibilizar as audiências sobre os riscos do ofício, não apenas em conflitos armados internacionais.
"Chegamos a uma época em que aquilo que vinhamos cobrindo durante muitos anos no exterior está chegando aos Estados Unidos, e estamos começando a ver mais ataques, detenções e agressões contra jornalistas", disse.
"Portanto, espero que qualquer pessoa que vir este documentário se dê conta da importância do jornalismo", acrescentou.
A 98ª cerimônia de entrega do Oscar será realizada em 15 de março em Hollywood.
O.Salvador--PC