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Comoção e perplexidade na mesquita de San Diego onde três pessoas morreram
Nos arredores da mesquita de San Diego onde seu pai foi baleado por dois adolescentes fortemente armados que se radicalizaram nas redes sociais, Ramzy olha para o vazio.
Assim como muitas pessoas com quem a AFP conversou na comunidade, ele sofria para processar a tragédia que a polícia investiga como um ataque islamofóbico que matou três pessoas.
"Todo mundo está em choque", disse. "É difícil acreditar que isso é real. Estamos apenas tentando entender."
Seu pai, identificado pelas autoridades como Nader Awad, foi uma das três vítimas fatais e foi exaltado nesta terça-feira (19) como um herói cujas ações salvaram vidas.
O chefe de polícia da cidade californiana, Scott Wahl, disse que os dois adolescentes invadiram o Centro Islâmico de San Diego na segunda-feira com a intenção de causar danos.
Mas foram enfrentados pelo segurança Amin Abdullah, que começou a atirar contra eles enquanto alertava sobre a situação pelo rádio.
"Suas ações, sem dúvida, distraíram e por fim impediram que esses dois indivíduos tivessem acesso às principais áreas da mesquita, onde cerca de 140 crianças estavam a aproximadamente 4,5 metros desses indivíduos", afirmou Wahl à imprensa.
Awad e outro homem, identificado como Mansour Kaziha, atraíram os atiradores para o estacionamento.
"Ele ouviu os disparos e correu para ajudar", contou Ramzy à AFP. "Infelizmente, ele foi atingido quando eles saíram do prédio", acrescentou. Os três homens morreram no local.
Os corpos dos suspeitos Cain Clark, de 17 anos, e Caleb Vazquez, de 18, foram encontrados em um veículo nas proximidades. Os investigadores acreditam que eles tiraram a própria vida.
Uma busca do FBI em suas casas recolheu dezenas de armas, além de munição, equipamentos táticos e eletrônicos, junto com escritos extremistas que a agência descreveu como "crenças religiosas e raciais sobre como o mundo que eles vislumbravam deveria ser".
- "Nós nos sentíamos seguros" -
A perplexidade era visível nos rostos dos membros da comunidade muçulmana que levaram flores à mesquita nesta terça-feira. Muitos mal conseguiam falar, dominados pelas lágrimas e pela emoção.
Com as palmeiras erguidas ao lado do minarete e as casas alinhadas ao longo da rua, o subúrbio oferece a imagem de um Estados Unidos multicultural e pacífico.
A mesquita funcionava como seção eleitoral e também atraía fiéis de outros continentes. Seu imã participava com frequência de orações inter-religiosas junto com a pastora de uma igreja protestante local.
"Essa comunidade muçulmana, eles são pessoas realmente boas, sabe", disse Katelynn Fisk, uma moradora que passeava com seu cachorro. "Nunca tratavam as pessoas como se fossem diferentes, mesmo que elas não compartilhassem das mesmas crenças."
O complexo religioso, um dos maiores centros muçulmanos da cidade, com 1,4 milhão de habitantes, sempre foi um refúgio.
"Nós nos sentíamos seguros aqui", afirmou Imani Khatib. "Não entendo por que nos tornamos um alvo."
Khatib, uma auxiliar de educação de 31 anos que usa véu, explode em choro diante da guarita de segurança, lugar onde o segurança defendeu com a própria vida o recinto.
"Se ele não tivesse feito o que fez, e sacrificado sua vida, os dois suspeitos poderiam ter entrado em cada sala de aula", disse o imã Tama Hassane. "Estamos muito orgulhosos dele", acrescentou o líder religioso.
"Vejo mensagens sobre ele literalmente do mundo todo falando sobre o seu heroísmo."
- "Supremacia branca" -
Como muitos locais de oração nos Estados Unidos, a mesquita tem sofrido atos esporádicos de islamofobia, relatou o imã.
Esses incidentes aumentaram após os ataques às Torres Gêmeas de 11 de setembro de 2001, em Nova York. Mais recentemente, os conflitos em Gaza e no Irã desencadearam outra onda de hostilidade.
"Recebemos alguns e-mails e mensagens por telefone que nos culpam por tudo o que está errado no mundo", disse à AFP. "Mas ter atiradores, isso nunca passou pela nossa cabeça."
O imã responsabiliza o "crescimento da supremacia branca" pelo atentado, assim como as autoridades eleitas por “desumanizar os muçulmanos e todas e cada uma das minorias: os negros, os latinos".
"Quando os jovens sofrem lavagem cerebral, eles ouvem essa retórica vinda da mídia, das autoridades eleitas, e isso lhes dá a desculpa, o sinal verde para cometer um crime."
G.Machado--PC