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A luta de uma alemã contra a prescrição dos supostos estupros cometidos por seu ex-marido
Claudia Wuttke viveu um primeiro pesadelo quando a polícia lhe mostrou imagens do computador de seu ex-marido com dezenas de supostos estupros que ela teria sofrido. Depois, um segundo, ao descobrir que 65 das 67 agressões poderiam ter prescrito segundo a legislação alemã.
Para essa moradora de Hamburgo, de 59 anos, tudo começou em junho de 2025, quando a polícia de Luneburgo, no norte da Alemanha, a convocou para identificar, em capturas de vídeos, uma mulher visivelmente "indefesa" que sofria abusos sexuais cometidos por seu ex-marido.
"Essa mulher era eu", conta ela em entrevista à AFP.
Wuttke viu nessas imagens "uma mulher completamente desorientada, sem vontade própria, incapaz de se expressar, que estava sendo estuprada de diferentes maneiras".
Ela afirma não ter nenhuma lembrança dos fatos, razão pela qual acredita que tenha sido dopada.
Segundo a revista Der Spiegel, que revelou o caso em meados de maio, a polícia encontrou no computador de seu ex-marido 67 vídeos nos quais ele aparecia submetendo Wuttke a penetrações orais, vaginais e anais, às vezes com seu pênis, outras com um consolo sexual e, em uma ocasião, com um taco de beisebol introduzido por via anal.
Os abusos teriam ocorrido ao longo de um período de 16 anos, durante o casamento e também após o divórcio, quando os dois ainda mantinham relações.
- Prescrição "intolerável" -
Após cinco meses de investigação, o mundo de Claudia Wuttke, autora de romances policiais, "desmorona" novamente quando ela recebe uma carta da promotoria informando que a maioria dos fatos documentados havia prescrito.
Restam um estupro que provavelmente ocorreu em 2021 e o cometido com o taco.
Na Alemanha, o prazo de prescrição é de cinco anos para estupros cometidos sem circunstâncias agravantes, como atacar uma pessoa "indefesa".
No entanto, não foi comprovado que houve sedação.
"Se essa mulher não estava indefesa, então como é uma mulher indefesa?", indigna-se Wuttke, também surpresa com o fato de poder haver prescrição quando ela sequer sabia que era uma vítima até que a polícia entrou em contato com ela.
O caso também evidencia uma reforma de 2016, aprovada durante o governo da chanceler Angela Merkel, que endureceu a legislação sobre crimes sexuais, mas também reduziu o prazo de prescrição em alguns casos.
Essa situação é "intolerável", afirma a advogada de Wuttke, Christina Clemm, que espera que "o debate público" leve a uma reforma da lei.
Embora, após apresentar um recurso, tenha conseguido que a investigação sobre os 65 estupros arquivados fosse reaberta, a ameaça da prescrição continua pesando sobre o caso.
A abertura do julgamento pelos dois crimes inicialmente mantidos, prevista para 15 de junho, acabou sendo cancelada enquanto se aguardam as conclusões dos investigadores sobre os outros 65 casos, anunciou nesta quarta-feira (3) o tribunal responsável pelo processo.
- "Abandonada" -
O caso veio à tona dois anos após o de Gisèle Pelicot, que contribuiu para que a violência sexual passasse a ser discutida abertamente em todo o mundo.
Claudia Wuttke afirma que esse precedente a ajuda a enfrentar a situação, já que "ninguém gosta de falar de estupro e ninguém gosta de imaginá-lo". Mas ela se sentiu "abandonada pelo Estado de direito", "terrivelmente sozinha" e "impotente".
O advogado de seu ex-marido, Moritz Klay, recusou-se a responder às perguntas da AFP, limitando-se a lembrar a proibição existente na Alemanha de "divulgar publicamente o conteúdo de um processo penal" em andamento.
Claudia Wuttke explica que nunca teve "nenhuma suspeita" em relação ao ex-marido. "Apesar de todas as coisas terríveis que essa relação envolvia, eu nunca teria imaginado a violência física."
Seu traje branco deixa à mostra uma pequena garça tatuada sobre o peito, símbolo de "poder" e "libertação", explica a escritora, apaixonada pela cultura japonesa e pelo tango argentino.
De sua experiência surgiu a ideia de criar uma comunidade de apoio chamada "Ungebrochen" ("Intactas"). "Quero oferecer às mulheres que passaram por isso aquilo que eu não tive."
E.Ramalho--PC