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Confissão de ministro de que ocultou dinheiro gera comoção política na Argentina
A confissão do chefe do gabinete ministerial argentino, Manuel Adorni, de que ocultou 500 mil dólares (R$ 2,58 milhões) em suas declarações de bens gerou comoção e críticas, nesta quinta-feira (11), por parte de figuras da oposição e até mesmo do próprio governo de Javier Milei.
Adorni está há mais de três meses no olho do furacão por revelações sobre compra de imóveis e viagens onerosas após sua chegada à função pública, que estão sendo investigadas pela Justiça.
Na noite de quarta-feira, o ministro apresentou às autoridades uma nova declaração de bens na qual incluiu 500 mil dólares que, segundo ele, havia economizado “por fora”.
“É claro que cometi um erro. Vou pagar até o último imposto que me couber pagar, até a última multa, todos os juros, tudo o que decorrer desse erro”, disse Adorni.
Dentro da base governista, a senadora Patricia Bullrich, ex-ministra no gabinete de Milei, reagiu dizendo que “isso é mais do que um erro, isso é uma omissão ética. E o nosso governo tem a moral como política de Estado”.
O partido de centro-direita PRO, liderado pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019) e aliado do governo no Congresso, considerou que Adorni cometeu uma “falta grave”.
“Um funcionário não pode dizer aos argentinos e ao Congresso Nacional que não ocultou nada, e depois admitir que sim, ocultou. Isso não tem nenhuma justificativa possível”, afirmou o PRO em comunicado.
Várias bancadas opositoras, incluindo o peronismo, convocaram uma sessão especial para 23 de junho para acertar uma interpelação a Adorni e avançar em uma eventual moção de censura contra ele.
Adorni, de 46 anos, tem sido uma das figuras de maior destaque do governo de Milei. Do seu cargo inicial como porta-voz presidencial em 2023, passou em novembro a chefe de Gabinete. Até agora, contou com o apoio irrestrito do presidente.
- “Bumerangue para o governo” -
Segundo o relato do ministro, todo o dinheiro que agora declara veio de sua atividade privada e de investimentos em criptomoedas entre 2014 e 2018. Porém, nesta quinta, começaram a circular vídeos com declarações antigas que contradizem sua versão.
Independentemente da origem dos recursos, Adorni reconheceu que, junto com a esposa, decidiu não declarar esses rendimentos “porque a forma de escapar da velha política era ter uma poupança por fora”.
O reconhecimento desses recursos implica uma guinada no discurso do chefe de Gabinete, que em abril disse ao Congresso que “jamais existiu qualquer ocultação” de seu patrimônio.
Para o consultor e analista político Facundo Cruz, a situação “gera um problema dentro do governo”, porque obriga o gabinete a defender um ministro que “não está em uma situação confortável” e impacta em um dos “pilares discursivos” da base governista, que é a crítica ao que tem chamado de “casta” política.
“É um bumerangue para o governo”, afirmou Cruz à AFP, já que, cada vez que Adorni tenta explicar o que ocorreu com seu patrimônio, “turbina ainda mais uma situação já por si só pouco transparente”.
A polêmica começou em março, quando a imprensa apontou uma viagem oficial a Nova York na qual ele levou a esposa, bem como viagens de férias em jato privado com a família.
Outros vazamentos desencadearam uma investigação judicial sobre a compra, nos últimos dois anos, de imóveis não declarados. O ministro ainda não foi convocado a depor no âmbito dessa investigação.
Para o analista político Gustavo Marangoni, o caso prejudica a reputação do governo, mas esse dano não terá necessariamente uma tradução eleitoral nas presidenciais de 2027. Trata-se de “uma fragilidade objetiva, mas não necessariamente irreversível”, diz à AFP.
A.S.Diogo--PC