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Mostra de Veneza premia cinema latino-americano na seção Horizontes
Equador e México brilharam na Mostra de Veneza, onde o júri da seção Horizontes contemplou "Hiedra" e "En el camino", os últimos trabalhos de Ana Cristina Barragán e David Pablos, com os prêmios de melhor roteiro e melhor filme.
O mexicano David Pablos, de 41 anos, foi o grande vencedor da seção, dedicada às novas tendências, ao ganhar o prêmio máximo com uma história de amor atravessada pela violência entre um jovem que é levado a se prostituir para sobreviver (Veneno) e um caminhoneiro (Muñeco).
"Este filme vem de um lugar muito pessoal (...), e é lindo ver que se conecta com outras pessoas", disse Pablos no sábado (6), ao receber o prêmio e agradecer à sua "equipe por sua paixão, por seu compromisso, sua fé no projeto".
O longa-metragem recria um pequeno universo no qual todos acabam se conhecendo e se cruzando nos pontos de parada à beira das estradas onde param para descansar. São vidas solitárias, que alguns enfrentam consumindo drogas, sobretudo para não dormir ao volante.
O diretor apostou em mostrar cenas sexuais muito explícitas porque "queria fazer um filme sem concessões, que mostrasse a sexualidade da forma mais nua, mais crua, porque assim são os encontros sexuais nestes espaços", explicou Pablos à AFP, em uma entrevista durante a Mostra.
Neste encontro, Sánchez assinalou que embora "ainda haja machismo", a sociedade mexicana mudou muito graças "aos movimentos LGBT".
Para o ator que interpreta o caminhoneiro Muñeco, "En el camino" é "importante" porque "para além de ser um tema LGBT, é um filme que fala de amor".
- "Viva o cinema latino-americano!" -
A outra ganhadora da noite foi a diretora equatoriana Ana Cristina Barragán, que levou o prêmio de melhor roteiro na mesma seção com "Hiedra".
O último filme da diretora de "Alba" o "La piel del pulpo" conta a história do encontro entre Azucena e Julio, dois jovens que trazem consigo feridas da infância. Ela teve que abandonar o filho que teve ainda menina e ele cresceu em um abrigo porque nunca conheceu os pais.
"O abandono é uma coisa que sempre esteve no meu trabalho", explicou Barragán à AFP em entrevista durante a mostra, insistindo em que queria criar personagens que "também pudessem explorar a ternura".
Para a seleção de elenco, como já tinha feito em trabalhos anteriores, Barragán buscou "atores naturais", como Francis Eddú Llumiquinga, que interpreta Julio. Já Azucena é interpretada pela atriz mexicana Simone Bucio ("A Região Selvagem", 2016).
"Hiedra" foi o primeiro longa-metragem equatoriano apresentado no Festival de Veneza em 26 anos, desde "Ratazanas, Ratos e Ladrões", de Sebastián Cordero (1999).
"Fazer cinema no Equador só é possível com a sincronia de muitos esforços titânicos, e este prêmio significa muito para o cinema do meu país", disse Barragán ao receber o prêmio.
"Viva o cinema latino-americano! Palestina livre!", exclamou a diretora de 38 anos, ao final de uma mostra marcada pela guerra na Faixa de Gaza.
Nesta edição do Festival de Veneza não houve nenhum filme latino-americano na competição oficial. A maioria dos trabalhos da região integrou as seções Horizontes e Spotlight, dedicadas às novas tendências.
Perguntado a respeito, o diretor artístico da mostra, Alberto Barbera, disse à AFP no início do festival que há "situações complexas que devem ser levadas em conta".
Ele deu como exemplo o Brasil, que "sai de quatro anos de ditadura de [Jair] Bolsonaro, que fez de tudo para pôr o cinema autoral brasileiro em segundo plano", e "a Argentina, onde o novo governo de [Javier] Milei cortou todo o financiamento".
- Olhares femininos -
Da dúzia de filmes de produção latino-americanas programados, entre longas e curtas-metragens, a metade foi dirigida por mulheres. Dos 21 da mostra oficial, apenas seis tiveram direção feminina.
Neste sentido, Ana Cristina Barragán disse esta semana à AFP que seu "trabalho tem se inspirado principalmente em diretoras mulheres", e citou a escocesa Lynne Ramsay e a argentina Lucrecia Martel.
"Obviamente é uma pena que o cinema siga em grande medida regido por um olhar masculino, esse olhar tem mais acessos, mais espaços", assinalou a equatoriana, que reconheceu mesmo assim que a situação evoluiu.
"Gostaria que isto mudasse e que os espaços para mulheres diretoras não sejam a exceção", concluiu.
G.Teles--PC