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Política de Trump leva lendária cantora de folk Joan Baez de volta ao estúdio
A lendária cantora de folk americana Joan Baez afirma que a volta de Donald Trump à Casa Branca a levou de volta ao estúdio, onde acaba de gravar uma nova canção de protesto.
Ícone dos anos 1960, conhecida por seu ativismo contra a guerra e a favor da justiça social, ela retorna em um dueto com Jesse Welles, interpretando a música anti-Trump "No Kings" (Sem Reis, em tradução livre).
"Adoro cantar com pessoas jovens, e essa canção é perfeita para minha voz. Foi um verdadeiro prazer", diz a artista octogenária à AFP em Paris. O single será lançado dentro dos próximos dez dias.
A música "tem um ar novo, ele tem 33 anos e está escrevendo essas coisas, e eu não tinha ouvido nada parecido", afirma Baez sobre Welles, com quem já se apresentou várias vezes.
"O que é necessário é um hino, algo que todos possam cantar", mas não é preciso saber a letra, basta entoar "No Kings, no Kings, no Kings", acrescenta a ativista, cuja última gravação havia sido "Whistle Down the Wind", em 2018.
Por sua vez, Welles, além de escrever sobre Trump ou o falecido magnata pedófilo Jeffrey Epstein, também critica em "Join Ice" os agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos (ICE).
O cantor, de aparência desleixada e conhecido por suas letras engenhosas e voz anasalada, lembra Bob Dylan, monumento do folk, Nobel de Literatura e ainda ativo aos 84 anos, que teve uma relação com Baez em sua juventude.
A cantora reconhece que há "semelhanças", mas está "feliz em deixar Dylan no pedestal ao qual pertence".
- "Evento enorme" -
A história de amor entre os dois esteve no centro do filme "Um Completo Desconhecido" (2024), de James Mangold, com Timothée Chalamet no papel do músico.
Baez disse que ficou satisfeita com a interpretação de Monica Barbaro, que a encarna no longa e com quem conversou várias vezes.
"O filme foi um evento enorme", lembra, explicando que agora as pessoas a reconhecem muito mais na rua do que antes.
Duas das artistas femininas com maior projeção atualmente, Lana del Rey e Taylor Swift, também contribuíram para apresentar a lendária artista às novas gerações.
Swift a convidou para um show na Califórnia em 2015 e Del Rey, com quem também compartilhou o palco, dedicou-lhe uma canção, "Dance Till We Die" (2021).
- "Legado sincero" -
Quando não está preocupada com a democracia americana, dedicando-se à sua paixão pela pintura ou cuidando de suas galinhas em sua casa no sul da Califórnia, o foco de Baez nos últimos anos tem sido lançar mais material autobiográfico.
Ela abriu seus arquivos pessoais de vídeo para o documentário de 2023 "Joan Baez: I Am a Noise", no qual revelou sua luta contra a depressão, o abuso de substâncias e o abuso infantil que acredita ter sofrido por parte do pai.
Após publicar suas memórias, sua última obra é um livro de poemas, "Quando você vir minha mãe, leve-a para dançar", criado a partir de décadas de anotações.
Alguns desses textos foram escritos quando a artista sofria de transtorno dissociativo de identidade, uma condição que faz com que os afetados assumam múltiplas personalidades.
"Agora posso escrever poesia, mas há algo especial na forma como foram escritos a partir das vozes interiores", diz em alusão aos escritos daquela época.
Embora ainda tenha pesadelos e às vezes tenha que lutar para manter à distância "a escuridão e a melancolia", Baez assegura que esta última década foi sua mais feliz.
"Não é uma loucura?", comenta rindo. "Por alguma razão, estou simplesmente desistindo de muitas coisas. Aos 85, quem se importa?"
Sua última turnê foi em 2019 e ela já não toca mais violão.
"Quero realmente deixar um legado sincero, sejam os poemas, a música, o documentário", afirma a artista, que fala sem rodeios sobre o final de sua vida. "Vou concluí-la de maneira honesta."
P.L.Madureira--PC