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Dólar paralelo dispara na Argentina e governo culpa oposição e especuladores
A cotação do dólar no mercado paralelo da Argentino manteve, nesta terça-feira (25), uma disparada de vários dias, alcançando 497 pesos por um dólar - 35 pesos a mais que na segunda-feira, um reflexo da inflação alta, segundo economistas, e de "boatos e informações falsas", segundo o governo.
Ainda que o dólar paralelo ou "blue" seja negociado em pequenas quantias no varejo, sua cotação é encarada como um sinal do humor dos mercados em um país com baixas reservas em divisas e acesso muito restrito ou quase nulo ao dólar oficial, vendido a 227,54 pesos nesta terça-feira em meio a um controle de câmbio ferrenho.
"Há vários dias vivemos uma situação atípica de rumores, versões, falsos informes e seu impacto consequente nos instrumentos financeiros vinculados ao dólar. Vamos usar todas as ferramentas do Estado para ordenar esta situação", tuitou o ministro da Economia, Sergio Massa, em meio à corrida cambiária.
Massa alertou que o governo vai "usar a Justiça Penal Econômica como veículo de investigação e esclarecimento de alguns comportamentos (no mercado) e a Unidade de Informação Financeira e a Comissão Nacional de Valores para a análise de operações vinculadas à lavagem de dinheiro".
Após sua série de mensagens, a escalada foi contida e o "blue" recuava levemente após alcançar o valor máximo do dia.
A economista Maria Castiglioni explicou ao canal de notícias TN que em um contexto em que "a inflação, longe de ir convergindo" para a meta oficial, "vai se acelerando mais", os argentinos buscam "refúgio" no dólar para preservar seu poder de compra.
A Argentina registra inflação de 104% em 12 meses, que corrói a renda da população.
Na sexta-feira, 14 de abril, o dólar "blue" era vendido a 392 pesos, enquanto que, nesta terça-feira, chegou a beirar os 500 pesos por dólar no meio do dia, com uma brecha de 120% frente à cotação oficial.
"Não vejo nada de trágico, simplesmente a queda do peso está ocorrendo a uma taxa de 7% mensal (a inflação de março foi de 7,7%). Mas não vejo nada diferente do que ocorreu em outros momentos desta crise", afirmou, por sua vez, o economista Augusto Darget ao canal de notícias América 24.
A seis meses das eleições presidenciais, a incerteza ronda a Argentina, com um cenário político indefinido entre a coalizão no governo de centro esquerda e a oposição de direita, depois que o presidente Alberto Fernández anunciou, na sexta-feira, que não disputará a reeleição.
- Tensão financeira -
Perguntado em uma coletiva de imprensa conjunta com o presidente da Romênia, Klaus Iohannis, na Casa Rosada, o presidente argentino responsabilizou "a direita" por operar nos mercados para obter lucros extraordinários.
"É uma prática permanente da direita argentina: primeiro plantam rumores pela manhã, operam durante todo o dia e quando cai a tarde, retiram sua rentabilidade do mercado cambiário e sacrificam, deste modo, a economia dos argentinos e das argentinas", afirmou Fernández.
O governo recorreu a uma forte emissão monetária para sustentar as finanças públicas em um contexto de acesso muito limitado ao crédito internacional. A Argentina mantém, ainda, um programa creditício de 44 bilhões de dólares (R$ 223,5 bilhões) com o FMI, que a obriga a cumprir metas de déficit fiscal.
Em busca de fortalecer as reservas, o Executivo promoveu mecanismos como o chamado "dólar soja", para incentivar o setor agropecuário a vender sua produção a uma taxa de câmbio mais favorável que a oficial, com o objetivo de melhorar a arrecadação. Mas uma forte seca e o avanço do 'blue' têm limitado o alcance desta iniciativa.
No âmbito da corrida cambiária, Fernández se reuniu na segunda-feira com o presidente do Banco Central, Miguel Angel Pesce, sem que tenha vazado informação sobre o que foi falado. O presidente disse estar "trabalhando muito consubstanciados" (unidos) com o ministro Massa e assegurou que "nunca esteve em discussão" a posição de Pesce à frente do Banco Central.
C.Amaral--PC