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Medo toma conta de salvadorenhos em Washington após deportação por engano
Sara López caminha rapidamente até seu carro, mantendo-se perto das paredes do estacionamento de um shopping nos subúrbios de Washington, onde ela faz compras.
"Tenho medo de andar na rua e ser presa", confessa esta salvadorenha, de 41 anos, que não possui autorização de residência nos Estados Unidos.
Ela e o marido se estabeleceram há três anos nos arredores da capital americana, onde vive a segunda maior comunidade salvadorenha do país.
Foi ali que o salvadorenho Kilmar Ábrego García foi preso e depois deportado, em meados de março, para seu país de origem, onde está preso em um mega presídio de alta segurança construído para abrigar membros de gangues.
No entanto, a Justiça já havia determinado, em 2019, que este imigrante de 29 anos não poderia ser deportado.
O governo de Donald Trump reconheceu inicialmente ter cometido um "erro administrativo" neste caso, embora tenha defendido sua decisão com unhas e dentes desde então.
A Casa Branca alega que Ábrego García pertence à gangue MS-13 e tem um histórico de violência doméstica.
"Acho que eles deveriam investigar esse caso a fundo, porque não podem simplesmente colocar todo mundo no mesmo saco", reclamou Sara López.
"Viemos para trabalhar e lutar, mesmo sem ter documentos ainda", afirma. "Não estamos prejudicando ninguém".
Em Mount Pleasant, um bairro de Washington cheio de restaurantes salvadorenhos, Keylie compartilha do mesmo sentimento.
"Alguns de nós temos dois ou até três empregos de meio período, só para conseguir sobreviver", diz esta filha de salvadorenhos de 31 anos, que prefere não revelar seu sobrenome.
Nascida nos Estados Unidos, ela tem cidadania americana. Mas isso não a tranquiliza: "Só de olhar para mim, dá para perceber que sou hispânica. Posso ser alvo só por isso, não sei, pode acontecer".
- "Decisão equivocada" -
A Suprema Corte ordenou que o governo Trump "facilite" o retorno de Ábrego García aos Estados Unidos, uma decisão bem recebida por Alberto García, um salvadorenho que está nos Estados Unidos há 20 anos.
Foi uma "decisão errada deste governo", lamenta García, ao afirmar que Ábrego García não teve a oportunidade de se defender.
No entanto, nem todos os salvadorenhos são tão categóricos.
"Não sei dizer se ele pertencia às gangues ou não, mas supostamente esses governos, tanto aqui quanto lá, o investigaram", observa Saúl Mercado, dando de ombros.
Este homem, de cerca de 60 anos, que obteve asilo após fugir da guerra civil em El Salvador (1979-1992), diz que concorda com as políticas de Trump.
O republicano, que durante sua campanha afirmou que os imigrantes "envenenam o sangue" dos Estados Unidos, foi apoiado nas eleições presidenciais de novembro por quase metade dos eleitores latinos, muito mais do que qualquer candidato de seu partido em eleições anteriores.
"Ele está limpando completamente a criminalidade", explica Saúl Mercado, traçando um paralelo com as ações do presidente salvadorenho, Nayib Bukele.
Em uma reunião em 14 de abril na Casa Branca, Bukele descartou qualquer gesto em favor de Ábrego García.
O presidente desfruta de grande popularidade em El Salvador por sua guerra contra as gangues que aterrorizam o país centro-americano, embora use mecanismos questionados por defensores dos direitos humanos.
Para muitos salvadorenhos que vivem nos Estados Unidos, o caso de Ábrego García criou um "conflito", diz Abel Núñez, diretor da Carecen, uma organização que auxilia os imigrantes da América Latina.
"Eles veem esse jovem como uma vítima, mas não necessariamente culpam Bukele por isso. Para eles, ele é apenas o carcereiro", explica Núñez, natural de El Salvador.
"Este caso afeta os Estados Unidos como um todo, não apenas a nossa comunidade, porque a deportação de Kilmar abre a porta para a deportação de qualquer pessoa, incluindo cidadãos americanos", acrescentou.
Trump já disse que "adoraria" enviar criminosos americanos para El Salvador.
F.Moura--PC