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Dois acidentes fatais em 48 horas geram dúvidas sobre segurança de trens espanhóis
Apenas dois dias após a tragédia em Adamuz, que deixou 43 mortos, outro acidente ferroviário tirou mais uma vida na terça-feira (20) na região da Catalunha, gerando dúvidas sobre o estado da rede ferroviária na Espanha, que levou os maquinistas a convocar três dias de greve.
"Os graves acidentes ocorridos em Adamuz e Gelida", respectivamente com 43 e 1 mortos, são "um ponto de inflexão" para exigir "todas as ações necessárias que garantam a segurança da operação ferroviária", informou o sindicato de maquinistas Semaf em um comunicado, convocando uma greve para os dias 9, 10 e 11 de fevereiro.
"Entendemos o estado de ânimo dos maquinistas e o respeitamos [...] o que não concordamos é que a greve geral seja a melhor forma de manifestá-lo", respondeu o ministro dos Transportes, Óscar Puente, durante uma coletiva de imprensa na qual expressou sua absoluta "confiança no sistema ferroviário espanhol".
"Não podemos, nem devemos pôr em questão nossa rede, nem transporte público do nosso país. Não é perfeito, não é infalível, mas é um grande sistema de transporte", acrescentou o ministro.
Por volta das 22h locais (17h de Brasília) de terça-feira, "um muro de contenção caiu sobre a via, provocando uma colisão com um trem" de curta distância perto do município de Gelida, a cerca de 400 km de Barcelona, informou a Defesa Civil. O condutor do trem morreu e 37 pessoas ficaram feridas.
As primeiras hipóteses indicam que o muro se desprendeu por causa de um temporal registrado na Catalunha nos últimos dias e atingiu o trem.
Após o acidente, que deixou a parte dianteira do comboio completamente amassada, a circulação dos trens de curta distância desta região populosa do nordeste da Espanha, usados diariamente por centenas de milhares de passageiros, principalmente para chegar a Barcelona, foi "suspensa [...] diante dos efeitos que o temporal está provocando na infraestrutura", informou o administrador da rede Adif.
Este novo acidente ocorreu enquanto o país segue abalado pela colisão entre dois trens no último domingo, com cerca de 500 passageiros a bordo, perto da cidade de Adamuz, na Andaluzia (sul).
Outro corpo foi encontrado no local do acidente nesta quarta-feira, aumentando para 43 o número de mortos. Além disso, 31 feridos permanecem internados, seis deles em unidades de terapia intensiva.
Os governos central e regional andaluz anunciaram que as vítimas receberão uma "homenagem de Estado" em 31 de janeiro em Huelva, cidade andaluza de onde vinham muitos dos mortos.
- 'É demais' -
Especialistas ainda estão investigando as causas da pior tragédia ferroviária do país desde que outro descarrilamento em 2013 matou 80 pessoas pouco antes de chegar à cidade galega de Santiago de Compostela.
A sucessão de acidentes colocou o serviço ferroviário espanhol, orgulho nacional por anos, e o governo de esquerda de Pedro Sánchez no centro das atenções. Sánchez havia prometido na segunda-feira, em Adamuz, "descobrir a verdade" sobre este acidente, ainda sem respostas.
"Isso é demais", escreveu no X Alberto Núñez Feijóo, líder do Partido Popular (PP), o principal da oposição, após o acidente em Gelida.
A inquietação tomou conta de alguns usuários de trens e visitantes do país, segundo destino turístico mundial.
"Ultimamente, os trens tremiam", disse à AFPTV Raluca María Pasca, uma garçonete de 45 anos, em uma estação de Córdoba.
"Acaba de ocorrer também em Barcelona, duas vezes já é demais", opinou Alexandra Leroy, turista francesa em visita a esta cidade da Andaluzia. Ela admitiu se sentir "um pouquinho" preocupada.
- Investigação completa -
No domingo passado, os últimos vagões de um trem da empresa privada italiana Iryo descarrilaram perto de Adamuz durante o trajeto entre Málaga e Madri. Dois deles foram parar nos trilhos adjacentes, justamente quando um trem da empresa estatal espanhola Renfe, que seguia na direção oposta, de Madri para Huelva, estava prestes a passar e colidiu com os vagões.
Os investigadores descartaram inicialmente o excesso de velocidade dos dois veículos, que colidiram em uma reta, ou erro humano como causas do acidente. Agora, buscam explicações nos trilhos e nos próprios trens.
Uma foto da Guarda Civil, mostrando agentes inspecionando um trilho com uma parte faltando, alimentou grande parte das especulações.
Inaugurada em 1992, a rede ferroviária de alta velocidade da Espanha é a segunda maior do mundo, depois da chinesa, com 4.000 km extensão.
L.E.Campos--PC