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Aclamado filme iraquiano mostra jugo de Saddam Hussein da perspectiva infantil
O cineasta iraquiano Hasan Hadi mostra, com "O Bolo do Presidente" (The President's Cake), a terrível tradição de comemorar o aniversário de Saddam Hussein e, com isso, a vida sob o regime do ditador do ponto de vista de uma menina.
Em sua obra de estreia, premiada com a Câmara de Ouro de melhor filme de estreia em Cannes, o diretor de 37 anos recorreu às próprias lembranças da infância, quando no Iraque, sob as sanções internacionais após a invasão do Kuwait em 1990, faltava de tudo, mas era preciso festejar todo aniversário do autocrata em grande estilo.
"Era uma das muitas contradições com as quais tinha que viver", lembra Hadi em entrevista à AFP em Paris, durante a promoção do filme, que estreará nos Estados Unidos na próxima sexta, 6 de fevereiro.
O ritual era celebrado inclusive nos colégios, onde um sorteio designava a cada ano quem devia preparar o bolo de aniversário em homenagem ao ditador, mesmo que para isso fosse preciso arriscar a vida para encontrar farinha, fermento ou açúcar.
Em "O Bolo do Presidente", esta missão impossível recai em Lamia, uma menina de nove anos que terá que enfrentar os perigos da cidade para tentar reunir os ingredientes necessários e fugir do castigo que recebem aqueles que fracassam.
"Tínhamos estratégias para evitar sermos os escolhidos: buscar refúgio no banheiro durante o sorteio, fingir estar doente e ficar em casa, subornar um professor", enumera o cineasta.
Hadi se livrou, mas ele lembra o destino trágico de um de seus colegas, que não conseguiu preparar o famoso bolo e foi expulso da escola. Acabou sendo recrutado, ainda criança, para o exército iraquiano e morreu alguns anos depois.
"Por culpa do acaso e do absurdo, algo tão estúpido quanto fracassar em preparar um bolo podia mudar seu destino para sempre", afirma.
- "Sinais de alerta" -
Mostrando também o impacto das sanções e dos bombardeios americanos que então atingiram o Iraque, "O Bolo do Presidente" disseca os efeitos nocivos da ditadura de Saddam Hussein durante seus anos no poder (1979-2003).
"A ditadura não destrói a liberdade de expressão simplesmente", explica Hadi. "Ataca os elementos que te fazem humano, te obriga a mentir, te torna hipócrita, manipulador e seus efeitos chegam muito tempo depois do seu fim", acrescenta o diretor, alertando para os "muitos sinais de alerta" da volta de regimes autoritários.
Com o filme, Hadi espera enviar uma mensagem para lembrar de uma época em seu país que, em sua opinião, foi pouco "explorada" no cinema.
O cinema iraquiano, antes dinâmico, não consegue se recuperar do caos do país naquele momento, que o mergulhou em uma guerra civil após a invasão americana de 2003 e a queda da ditadura de Saddam Hussein, um período sombrio para a sétima arte.
Por causa das sanções, a exportação de rolos de filme para o Iraque esteve proibida porque um de seus componentes podia ser usado para fabricar armas químicas.
"De certo modo, todos os filmes eram proibidos", lembra Hadi, que construiu sua cultura cinematográfica graças a fitas de VHS obtidas clandestinamente.
E.Paulino--PC