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'Foi espancado até a morte!': abuso militar no combate ao narcotráfico no Equador
Mónica Franco está desolada. Há três meses ela chora por seu filho, Bryan Ledesma, que morreu após ser espancado e submetido a choques elétricos durante uma operação militar antidrogas no sudoeste do Equador.
O jovem de 28 anos é o rosto mais recente das denúncias sobre abusos do Exército em sua luta contra quadrilhas de narcotraficantes em um país considerado um dos mais violentos da América Latina.
"Se meu filho estava supostamente envolvido em algo errado, por que não o levaram para a polícia? Eles o espancaram até a morte!", diz à AFP Franco, entre lágrimas, em Milagro, localidade perto de Guayaquil assolada pela extorsão do crime organizado.
Em 2025, o Equador registrou 244 denúncias de uso excessivo da força por parte de militares e polícias. Neste ano, foram contabilizados 23 casos de suposta execução extrajudicial, segundo números do Ministério Público.
Ledesma era alegre, gostava de 'vallenato' (ritmo musical tradicional) e sonhava em dirigir uma carreta, assim como seu pai.
Em 16 de março, três dias após seu aniversário, foi interceptado por uma patrulha do Exército quando estava indo buscar uma moto na oficina mecânica. Foi detido junto com um amigo e submetido a espancamentos por 40 minutos, segundo o inquérito do Ministério Público.
"Não sei o que aconteceu, e é essa a pergunta que me faço mil e uma vezes", acrescenta Franco, uma dona de casa de 57 anos, vestida de preto, e que diz não ter vontade de comer ou dormir.
Desde então, ela vai todos os domingos ao túmulo de seu filho. Sorri ao lembrar que o seu "magrelo" gostava de futebol e camarão empanado.
Após a morte de Ledesma, sete militares foram processados por supostos excessos no exercício de suas funções durante o cumprimento do serviço.
- "Não aguento mais" -
Um amigo que conseguiu escapar contou que os soldados jogaram Ledesma em uma poça em uma área rural de Milagro e lhe deram choques com uma pistola elétrica em sua língua.
Patricio Ledesma, o pai do jovem, culpa o governo do presidente Daniel Noboa pela tragédia porque ele "deu muita importância aos militares" na estratégia de segurança.
Os fatos ocorrem em meio a uma ofensiva do presidente de direita, que colocou soldados nas ruas em um estado de exceção e com apoio dos Estados Unidos.
Apesar das operações militares, o Equador alcançou a taxa de 51 homicídios por 100 mil habitantes no ano passado, um recorde histórico.
Dos sete militares envolvidos no caso de Ledesma, dois estão presos. Os outros cinco estão sujeitos a medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica e apresentações periódicas perante um juiz. Uma audiência para revisar a prisão preventiva foi suspensa.
A testemunha agora enfrenta um processo por tráfico de drogas, após uma batida em sua residência, na qual foram encontradas pequenas doses de cocaína e maconha. Um juiz determinou medidas de proteção e descartou a prisão preventiva.
O corpo de Ledesma foi encontrado em um hospital, molhado, cheio de terra e com a boca aberta, segundo seus familiares.
"A última coisa que meu irmão disse foi 'não aguento mais'", relatou uma irmã de Ledesma, que pediu para manter sua identidade em sigilo, após ver um vídeo que os moradores da região gravaram durante o espancamento.
- "O elo mais fraco" -
Em sua defesa, os militares argumentam que procuravam traficantes de drogas, embora não haja evidências de que Ledesma portasse substâncias ilícitas.
As Forças Armadas se desvincularam do caso e afirmam que os agentes atuaram sem autorização e fora de sua jurisdição.
"É um padrão: os miliares pegam esses jovens e os espancam tanto para arrancar deles informações sobre microtraficantes", explicou Billy Navarrete, diretor da ONG Comitê de Direitos Humanos (CDH), com sede em Guayaquil.
Segundo o ativista, estas operações "vão atrás do elo mais fraco, enquanto os chefões continuam intocáveis".
Organizações de defesa dos direitos humanos criticam a política de segurança de Noboa em razão de denúncias de desaparecimentos forçados e outros casos, como o de quatro menores detidos em 2024 por membros da Força Aérea. Seus corpos foram encontrados carbonizados.
Nos últimos seis meses, militares do Exército estiveram envolvidos na morte de um jovem de 19 anos por espancamento e de outro de 22 a tiros, segundo as denúncias apresentadas.
"Será que eles estão acostumados a sair por aí matando pessoas só porque elas usam uniforme?", questiona Franco, enquanto acaricia um cartaz com a imagem de seu filho.
str/sp/pld/lv/ad/rm/mvv
G.Teles--PC