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Papa denuncia a 'indiferença' com os imigrantes em ato simbólico nas Canárias
O papa Leão XIV denunciou, nesta quinta-feira (11), a "indiferença" com os imigrantes que são explorados ou morrem no mar tentando chegar à Europa, em uma comovente homenagem no porto de Arguineguín, nas Ilhas Canárias, um símbolo da crise migratória.
Na etapa final e politicamente significativa de sua visita à Espanha, o pontífice lançou um buquê de flores ao mar em memória dos milhares que morreram na perigosa rota atlântica para as Canárias, um arquipélago espanhol localizado na costa noroeste da África.
"Hoje existem monstros que espreitam esses mares: máfias que traficam o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças, e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento", disse o papa, de 70 anos, em seu discurso.
Defensor do acolhimento dos imigrantes, Leão XIV enviou uma mensagem à Europa: "Não pode proclamar a dignidade humana e se acostumar com o Mediterrâneo e o Atlântico sendo cemitérios sem lápides."
Mas ele também pediu "reflexão por parte dos países de origem, que devem criar condições de paz, justiça e desenvolvimento", e por parte dos "países de trânsito, que são chamados a proteger e não abandonar os vulneráveis às redes criminosas".
No ano passado, quase 1.200 migrantes morreram ou desapareceram na rota para as Ilhas Canárias, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM).
- Desejo de Francisco -
Em Arguineguín, porto de entrada para migrantes que chegam em suas embarcações precárias à ilha de Gran Canaria, Leão XIV realizou o desejo de seu antecessor, Francisco, o pontífice argentino que morreu sem conseguir fazer a travessia até o arquipélago, um dos principais pontos de entrada para a Europa.
"Eu tinha que escolher. Viver sofrendo ou atravessar e arriscar tudo. Morrer tentando ou ficar e não ter nada. Escolhi atravessar (...) Durante a travessia, engravidei de um mafioso. Quando cheguei à Espanha, tiraram meu bebê de mim para me obrigar à prostituição", foi um dos testemunhos que o papa ouviu, neste caso de uma nigeriana vítima de tráfico humano.
Mohamed Amjahdi, que chegou há 20 anos procedente do Marrocos e atualmente é membro da Comissão Islâmica Espanhola, disse à AFP que o trabalho da Igreja Católica com os imigrantes é "sem distinção, sejam cristãos, brancos, todos recebem o mesmo".
"Aqui estão pessoas resgatadas do mar e corpos sem vida retirados das águas", continuou Leão XIV, acompanhado pelo presidente de Governo espanhol, Pedro Sánchez, entre outros 1.800 convidados, em sua maioria imigrantes e socorristas.
Os imigrantes podem ser "despojados de quase tudo, mas nunca de sua dignidade", e possuem "sonhos que ninguém tem o direito de desprezar", prosseguiu o líder espiritual de 1,4 bilhão de católicos em todo o mundo.
- "Doca da esperança" -
Em 2024, um ano recorde, mais de 46 mil pessoas enfrentaram o mar em barcaças precárias e chegaram a estas ilhas.
Desde então, as chegadas diminuíram (17.788 em 2025), em grande parte devido à cooperação de Espanha e da UE com os países de onde partem os migrantes.
Arguineguín era conhecido como o "porto da vergonha" devido à superlotação de milhares de imigrantes no auge de suas chegadas. O evento com o papa procurou rebatizá-lo de "doca da esperança", segundo os organizadores.
Em um momento de endurecimento das políticas de acolhimento de imigrantes em muitos países, com poucas exceções como Espanha, Leão XIV já se referiu a esta questão na segunda-feira no seu discurso perante o Parlamento em Madri.
"É essencial uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhimento e oportunidades reais de integração" aos imigrantes, afirmou.
A quinta-feira é o penúltimo dia da viagem do papa à Espanha, uma visita que desde sábado o levou a Madri, Barcelona e Gran Canaria. Termina na sexta-feira em outra ilha do arquipélago, Tenerife, onde também visitará um centro de imigrantes.
X.Brito--PC