Centenas de menores dormem ao relento em Ceuta devido à crise migratória
Centenas de menores dormem ao relento em Ceuta devido à crise migratória / foto: JORGE GUERRERO - AFP

Centenas de menores dormem ao relento em Ceuta devido à crise migratória

Com camisetas sujas, centenas de menores desacompanhados dormiam ao relento neste sábado (1º) em um parque industrial desativado de Ceuta, após terem atravessado o mar a nado desde o Marrocos até o território espanhol.

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Vários adolescentes que perambulavam entre as paredes vermelhas e amarelas dos galpões abandonados disseram a um jornalista da AFP que mal haviam comido nos últimos quatro dias.

Eles fazem parte das dezenas de milhares de migrantes que cruzaram para Ceuta, a maioria nadando ao redor do pequeno posto fronteiriço que avança sobre o Mar Mediterrâneo, em uma onda migratória sem precedentes que desencadeou uma crise europeia.

A maior parte dos recém-chegados já foi devolvida ao Marrocos, mas grupos dos mais jovens permaneceram. Eles dizem que seu objetivo é chegar à Europa continental.

"Marrocos, não! Espanha", gritavam vários deles, explicando por que haviam feito a perigosa travessia marítima.

Um deles segurou o escudo da camisa vermelha da seleção espanhola de futebol e gritou: "Viva a Espanha!".

Outro aproximou-se insistentemente e disse que tinha 14 anos e que havia vindo sozinho, sem nenhum adulto. Apontou para um monte de lixo e caixas de papelão espalhados sobre o piso de concreto onde, segundo contou, dormia à noite.

A AFP não solicita depoimentos de menores desacompanhados nem divulga sua identidade, de acordo com seu código de ética.

No interior de um galpão com forte mau cheiro, os menores caminhavam sobre um piso coberto de água e lama. Alguns tomavam banho usando uma única mangueira.

Outros cochilavam nas calçadas.

Um deles, que afirmou ter 17 anos, mostrou uma estrutura improvisada feita com barras de metal e paletes, onde ele e seus amigos dormiam.

- Proteção aos menores -

Não havia policiais nem outras autoridades no local. Apenas seguranças particulares bloqueavam o acesso a um galpão onde se acredita que outros jovens migrantes estejam alojados.

Uma placa no edifício informava que o local era administrado pela Fundação SAMU, uma organização humanitária, em parceria com o governo regional de Ceuta.

Os funcionários responsáveis pelo centro se recusaram a falar com a AFP.

Em outras áreas da cidade cercada por muros, soldados espanhóis conduziam centenas de outros migrantes — em sua maioria homens jovens e adolescentes — pelas ruas ladeadas por palmeiras de Ceuta até a fronteira, para que retornassem ao Marrocos.

O artigo 35 da Lei de Estrangeiros da Espanha estabelece que, quando a polícia identificar um migrante sem documentos e desacompanhado que se suspeite ser menor de idade, ele deverá receber "a assistência imediata de que necessite" dos serviços de proteção à infância.

Posteriormente, os tribunais decidem se um menor pode ser devolvido ao seu país de origem, levando em consideração as circunstâncias familiares.

Um dos poucos adultos que estavam entre a multidão abrigada à sombra dos galpões, Aziz Dabch, de 41 anos, declarou à AFP, em um francês hesitante: "todas as crianças daqui querem ir para a Espanha" continental.

Ele veio da cidade marroquina de Kenitra acompanhado da esposa e das duas filhas.

"Ninguém" está cuidando dos menores desacompanhados, afirmou sua filha de 17 anos, sentada ao seu lado. "Não há comida. Hoje não comemos", declarou.

- Roupas e comida -

Uma mulher de 45 anos estava abrigada nas proximidades, com o rosto avermelhado pelo sol.

"Há muitos menores. Não vejo ninguém cuidando deles", declarou à AFP.

A mulher não quis se identificar porque está em situação migratória irregular, depois de ter atravessado a nado para Ceuta junto com o marido e a filha.

"Há uma falta de higiene catastrófica: mau cheiro, lixo", declarou à AFP.

Cerca de 60 mil migrantes chegaram a Ceuta ao longo de dois ou três dias nesta semana, estimou o presidente do governo local, Juan Jesús Vivas.

O Ministério do Interior da Espanha estimou o número em 50 mil.

Pelo menos 67 deles morreram ao tentar chegar a Ceuta a nado, segundo o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.

"Queremos chegar à Espanha e trabalhar lá por causa da pobreza" existente no Marrocos, afirmou a mulher de 45 anos, natural de Tânger.

"Alguém deveria cuidar dos menores, permitir que eles tomassem banho, dar-lhes roupas, comida e um lugar para dormir", acrescentou.

As autoridades locais e a representação do governo central espanhol no território não responderam, neste sábado, aos questionamentos da AFP sobre o assunto.

F.Cardoso--PC