Reino Unido recupera ouro de resíduos eletrônicos para fabricar joias
Reino Unido recupera ouro de resíduos eletrônicos para fabricar joias / foto: Darren Staples - AFP

Reino Unido recupera ouro de resíduos eletrônicos para fabricar joias

Em uma fábrica da Casa da Moeda do Reino Unido, antigos telefones fixos do Banco da Inglaterra são desmontados e seus componentes mergulhados em grandes tanques com substâncias químicas. O objetivo é recuperar o ouro presente em seus circuitos eletrônicos.

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Em suas instalações situadas em Llantrisant, 15 km a noroeste de Cardiff, no País de Gales, a Royal Mint — estatal encarregada de fabricar as moedas do Reino Unido — inaugurou há dois anos uma planta especializada na reciclagem de resíduos eletrônicos para transformá-los em joias.

Atualmente, é capaz de "processar aproximadamente 4.000 toneladas" de aparelhos eletrônicos descartados por ano e recuperar deles "quase 400 quilos de ouro", segundo Sean Millard, diretor de desenvolvimento da empresa.

Um conjunto de grandes tanques funciona quase de forma automática, mas não é permitido filmar o processo para proteger a tecnologia patenteada utilizada pela empresa canadense Excir.

- Bom condutor de eletricidade -

O ouro é muito utilizado em circuitos eletrônicos porque conduz bem a eletricidade e, ao contrário de outros metais, não oxida nem se deteriora com o tempo.

No entanto, embora tenha um alto valor econômico, é difícil recuperá-lo de aparelhos eletrônicos porque é um metal pouco reativo e não se dissolve facilmente por meio de processos químicos.

Em muitos processos de reciclagem, os diferentes materiais dos aparelhos eletrônicos são fundidos todos juntos.

Já na Royal Mint, os dispositivos são desmontados e seus componentes são separados manualmente, como o cobre, o tântalo — um metal utilizado em alguns capacitores eletrônicos — e o plástico.

Depois, esses materiais são vendidos separadamente a empresas especializadas em sua reciclagem ou reutilização.

Tradicionalmente, são utilizados dois métodos principais para extrair o ouro de resíduos eletrônicos. O primeiro recorre a temperaturas muito altas para separar os metais. O segundo utiliza ácidos que dissolvem o ouro, mas podem gerar resíduos tóxicos e poluentes.

O método utilizado no País de Gales permite separar o ouro dos componentes eletrônicos sem necessidade de aplicar altas temperaturas. Para isso, é empregado um líquido químico que "dissolve o ouro à temperatura ambiente", o que reduz o consumo de energia.

Além disso, o mesmo solvente pode ser reutilizado várias vezes e o processo gera poucos resíduos, explica Kate Griffiths, química da Royal Mint.

- Joias de alto padrão -

Uma vez refinado para aumentar sua pureza, o ouro extraído é usado para fabricar joias de alto padrão da marca "886" da Royal Mint, inspirada na data de fundação da instituição.

No ateliê de joalheria, John Powell afirma que a origem do metal é indiferente. "Eu não seria capaz de dizer se estou trabalhando com material reciclado ou não", explica.

O trabalho da Royal Mint é uma gota no oceano. Em escala mundial, apenas 22,3% dos resíduos eletrônicos foram reciclados adequadamente em 2022, segundo um estudo da ONU.

O relatório das Nações Unidas acrescenta que o tratamento inadequado desses resíduos pode liberar chumbo, mercúrio ou plásticos e contribuir para o aquecimento global.

O forte aumento do preço do ouro — que se aproximou de 5.600 dólares por onça em janeiro (28.400 reais na cotação atual) devido às tensões internacionais — torna sua reciclagem cada vez mais atrativa.

Jason Hallett, do Imperial College de Londres, insiste, no entanto, que o benefício só será real se novos métodos não exigirem um consumo excessivo de energia nem gerarem mais emissões poluentes.

A.Santos--PC