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Mushuc Runa, o clube indígena que quebrou estigmas para brilhar na Copa Sul-Americana
Ele nasceu em um terreno baldio no Equador, onde jogar futebol era considerado um passatempo "de cachorros". Após quebrar o estigma, o clube indígena Mushuc Runa brilha na Copa Sul-Americana de 2025.
Seu nome significa 'Homem Novo' na língua quíchua, falada nas comunidades Chibuleo e Pilahuin, no planalto equatoriano, onde foi fundado por um indígena em 2003.
Ponchito, como é conhecido, é o único time com 100% de aproveitamento nas três primeiras rodadas do torneio sul-americano e está a um passo de garantir sua primeira classificação para as oitavas de final da competição.
A equipe pode alcançar tal feito na quarta-feira (7), quando recebe o Cruzeiro, time que derrotou surpreendentemente por 2 a 1 em Belo Horizonte no jogo de ida pelo Grupo E.
"A primeira coisa que fazemos com o Mushuc Runa é representar o povo indígena que está fazendo história", disse à AFP a vice-presidente Karina Chango, considerada a primeira mulher indígena a dirigir um clube de futebol.
- "Fenômeno" regional -
Sob chuva e frio intenso, o veterano treinador paraguaio Ever Hugo Almeida comanda um treino a 3.250 metros de altitude na comunidade de Echaleche, na província de Tungurahua (centro andino).
Não há indígenas no elenco titular, embora alguns já estejam treinando em divisões inferiores. No Equador, apenas 8% dos 18 milhões de habitantes se identificam com um povo originário.
"O Mushuc Runa é um fenômeno (...) Não há nem mesmo uma contagem semelhante em nível regional", diz o analista esportivo Patricio Granja, que atribui o sucesso do clube à continuidade do técnico Almeida, à incorporação de reforços estrangeiros e aos investimentos para aumentar o teto salarial.
Mas o Ponchito está longe do poderio de muitos de seus rivais, incluindo o Cruzeiro, vice-campeão da Sul-Americana de 2024 e bicampeão da Copa Libertadores (1976, 1997), e com um elenco atual avaliado em quase 100 milhões de dólares (567 milhões de reais, na cotação atual).
O conjunto de jogadores do Mushuc Runa é o "mais caro" de sua história e está avaliado entre "2,5 e 3 milhões de dólares" (entre 14 e 17 milhões de reais), de acordo com Chango.
- Poncho como símbolo -
O impacto da equipe, que estreou na primeira divisão em 2014, no entanto, tem pouco a ver com números.
Ponchito não é apenas o apelido, é também a roupa com a qual os jogadores entram em campo e que se tornou uma marca registrada do clube e de seus torcedores, que a usam nas arquibancadas.
O manto protege os jogadores das baixas temperaturas que acompanham os treinos conduzidos por Almeida, um técnico experiente de 76 anos, com títulos no futebol guatemalteco, paraguaio e equatoriano.
O ex-goleiro comanda a equipe no estádio Echaleche, que foi construído de forma comunitária, uma prática enraizada no Equador, onde a influência indígenas também é evidentes no vestuário, na gastronomia e no idioma.
No entanto, as autoridades locais proibiram a disputa de jogos oficiais neste local porque o estádio não atende aos padrões técnicos, de modo que o clube joga na cidade vizinha de Riobamba (2.750 metros acima do nível do mar).
Apesar da proibição, Echaleche é o orgulho dos torcedores, que anseiam pelos domingos de futebol.
Daniel Curillo assiste com entusiasmo a um treino. A primeira vez que ele pisou em um estádio foi depois de se casar, aos 19 anos de idade. O futebol era proibido para os jovens quíchuas dessa região.
Agora com 39 anos, exibe com orgulho uma coleção de camisas de seu time.
Para o capitão da equipe, Dennis Quintero, "é uma grande responsabilidade" liderar uma equipe que nasceu em uma comunidade indígena que rejeitava o futebol.
Os resultados internacionais devem "ser uma motivação para que eles saibam que podem alcançar coisas importantes", ressalta o zagueiro.
"Saber que sua cultura pode ser vista de outra maneira, não apenas como trabalhadores, mas como profissionais do futebol", completou.
M.Gameiro--PC