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Moradores fogem da capital do Sudão em meio a combates e corpos nas ruas
Milhares de pessoas fugiram nesta quarta-feira (19) de Cartum, capital do Sudão, onde testemunhas informaram que corpos jaziam pelas ruas, no quinto dia de combates entre o Exército e os paramilitares.
Os confrontos em Cartum e em outras regiões do país já deixaram mais de 270 civis mortos, de acordo com um balanço provisório de 15 embaixadas ocidentais.
Governos estrangeiros começaram a planejar a evacuação de milhares de expatriados, incluindo funcionários da ONU, que denunciou os "saques, ataques e violência sexual contra trabalhadores humanitários".
O ministro da Defesa do Chade, país vizinho, informou que, no último domingo (16), 320 militares cruzaram a fronteira para fugir dos confrontos violentos. "São 320 elementos do exército sudanês, gendarmes, policiais e militares que temem ser mortos pelas Forças de Apoio Rápido (FAR), que se renderam às nossas forças", disse à AFP o general Daoud Yaya Brahim, nesta quarta-feira.
No último sábado, a violência explodiu entre as tropas dos dois generais que tomaram o poder em um golpe de Estado em 2021: o comandante do Exército, Abdel Fatah al-Burhan, e seu então número dois, Mohamed Hamdan Daglo, comandante do grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (FAR ou RSF, na sigla em inglês).
Ambos divergem sobre os planos de integração das FAR ao Exército oficial, uma condição crucial do acordo final para a retomada da transição democrática no Sudão.
- Corpos nas ruas -
Nesta quarta-feira, milhares de pessoas começaram a abandonar suas casas na capital sudanesa, que tem cinco milhões de habitantes. Algumas estavam em veículos e outras a pé, incluindo mulheres e crianças.
As ruas estavam repletas de cadáveres, com o cheiro da decomposição cada vez mais intenso, segundo testemunhas.
"A vida em Cartum é impossível se esta guerra não for interrompida", disse Alawya al-Tayeb à AFP enquanto fugia da capital.
"Fiz tudo o possível para que meus filhos não vissem os cadáveres nas ruas", acrescentou a mulher de 33 anos.
Durante a manhã, foram ouvidas fortes explosões e tiroteios intensos na capital. Colunas de fumaça eram observadas nas proximidades do quartel-general do exército no centro da cidade.
Combatentes das FAR em veículos armados e caminhões com armas pesadas circulavam pelas ruas, enquanto caças do exército sobrevoavam e atiravam contra alvos do grupo paramilitar, segundo testemunhas.
Os civis que permanecem em suas casas estão cada vez mais desesperados diante da escassez de alimentos, dos apagões e da falta de água encanada. Alguns deles foram forçados a sair em busca de suprimentos quando a intensidade dos combates diminuiu.
A esperança de retirada da cidade acabou na terça-feira, quando uma trégua humanitária de 24 horas não foi concretizada poucos minutos antes do horário previsto para seu início.
As FAR anunciaram unilateralmente nesta quarta-feira "uma trégua de 24 horas a partir das 16h00 GMT (13h de Brasília)", mas há pouca confiança de que ela seja cumprida.
- Transição fora dos trilhos -
Após cinco dias de confrontos, é difícil saber quem controla quais partes da capital. Imagens de satélite exibem a dimensão dos danos, visíveis do interior da sede do Estado-Maior do exército.
"Nenhuma parte parece estar vencendo no momento e, levando em consideração a intensidade dos combates, as coisas podem piorar antes que os dois generais se sentem à mesa de negociações", alerta Clément Deshayes, da Universidade Paris 1.
A espiral de violência acontece depois que mais de 120 civis morreram na repressão contra as manifestações pró-democracia dos últimos 18 meses.
O início dos confrontos no sábado foi o ponto máximo das profundas divergências entre o Exército e as FAR, criadas em 2013 pelo ditador deposto Omar al Bashir.
Burhan e Daglo derrubaram Bashir em conjunto em abril de 2019, após os grandes protestos contra as três décadas de ditadura.
Em outubro de 2021, os dois homens lideraram um golpe contra o governo civil instalado após a queda de Bashir, o que acabou com a transição apoiada pela comunidade internacional.
Burhan, um militar de carreira do norte do Sudão, afirmou que o golpe era "necessário" para incluir outras facções na política. Mas para Daglo, conhecido como "Hemedti", o golpe foi "um erro" que não conseguiu gerar mudança e reforçou a presença dos remanescentes do regime de Bashir.
L.Mesquita--PC