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Após cúpula de alto risco, Trump parece ter cedido a Putin
Donald Trump quis ser audacioso ao participar de uma cúpula pomposa e de alto risco com Vladimir Putin para verificar se o líder russo cederia na guerra da Ucrânia. No final, parece que foi Trump, e não Putin, quem cedeu.
Um Putin sorridente, que pisava em um país ocidental pela primeira vez desde que ordenou a invasão da Ucrânia em 2022, não fez nenhuma concessão aparente nas conversas em uma base aérea no Alasca na sexta-feira.
Em uma breve aparição conjunta com Trump perante a mídia, na qual, excepcionalmente, não respondeu a perguntas, Putin voltou a falar sobre abordar as "causas profundas" do conflito e advertiu Kiev e os europeus para não perturbarem o "progresso emergente" com os Estados Unidos, grande defensor da Ucrânia sob o mandato do antecessor de Trump, Joe Biden.
Trump, que se considera um negociador habilidoso, reconheceu que "não houve acordo", mas disse que havia "muito poucas" áreas de desacordo, embora tenha sido impreciso sobre quais seriam.
Horas depois, em uma publicação em sua conta na Truth Social, Trump afirmou, no entanto, que queria que Rússia e Ucrânia "chegassem diretamente a um acordo de paz que acabasse com a guerra" e não a um cessar-fogo.
O próprio governo de Trump vinha promovendo um cessar-fogo por meses, e o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, comprometeu-se a essa ideia após intensa pressão de Trump.
Putin rejeitou repetidamente as ofertas de trégua e manteve seus ataques contra a Ucrânia, buscando maximizar sua vantagem no campo de batalha.
- Putin volta a cortejar Trump -
Trump havia prometido ser firme com Putin após as várias críticas a como se posicionou diante do líder russo em uma cúpula anterior em 2018, em Helsinque.
Mas Putin voltou a encontrar uma maneira de cortejar Trump. Perante as câmeras, o líder russo disse que não teria havido guerra —obviamente iniciada por ele mesmo— se Trump tivesse sido presidente em 2022, em vez de Biden, um tema que Trump costuma mencionar.
Trump lamentou o efeito que teve nas relações com Putin o que voltou a classificar de "engano" após as descobertas dos serviços de inteligência dos Estados Unidos de que a Rússia interferiu nas eleições de 2016 para favorecê-lo.
Após a cúpula, em uma entrevista à Fox News, Trump afirmou que "uma das coisas mais interessantes" que Putin lhe contou foi sobre (...) o sistema eleitoral dos Estados Unidos.
Com tom de aprovação, Trump afirmou que Putin —no poder na Rússia desde 2000 e declarado vencedor das eleições de 2024 com 88% dos votos— falou sobre os riscos do voto por correio. E Trump contou que, sobre sua derrota em 2020 diante de Biden, Putin também lhe disse: "Você ganhou essas eleições por uma diferença enorme".
As autoridades eleitorais e especialistas dos Estados Unidos não encontraram evidências de fraude em grande escala na votação por correio nas eleições de 2020, algo que Trump, como nunca ocorreu na história dos Estados Unidos, se recusou a reconhecer.
- "Vergonhoso" ou digno de "reconhecimento"? -
Os rivais democratas de Trump expressaram sua indignação pela falta de avanços na cúpula no Alasca e afirmaram que apenas serviu para normalizar a relação com Putin, contra quem há um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional.
"Ao literalmente estender o tapete vermelho, Trump legitimou a agressão da Rússia e encobriu os crimes de guerra de Putin. É vergonhoso", declarou Gregory Meeks, o democrata de maior destaque no Comitê de Relações Exteriores da Câmara de Representantes.
Especialistas apontaram que é muito cedo para descartar eventuais conquistas da cúpula com Putin, já que se desconhece muito do que foi discutido a portas fechadas. Trump se reunirá com Zelensky na segunda-feira na Casa Branca.
Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar do Defense Priorities, um centro de estudos em Washington, afirmou que os críticos de Trump estão equivocados ao afirmar que "ele entregaria a Ucrânia a Putin ou obrigaria Kiev a se render".
"Seu objetivo foi e continua sendo trazer Putin à mesa de negociações. O senhor Trump merece reconhecimento, não condenação, por seus esforços até agora", afirmou.
Mas Kristine Berzina, pesquisadora principal do German Marshall Fund, um grupo de especialistas em políticas públicas dos Estados Unidos, afirmou que "Putin marcou uma vitória ao comparecer, e as declarações limitadas e o comportamento tenso de Trump permitiram (ao líder russo) controlar a narrativa".
"Para um homem tão propenso ao espetáculo, Trump permitiu, de forma incomum, que Putin fosse a estrela do que deveria ter sido o show de Trump", afirmou.
F.Carias--PC