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Partido das Farc joga sua última cartada na Colômbia: 'não tem sido fácil'
Sandra Ramírez dança, agita bandeiras e faz discursos em praças públicas. Pela primeira vez, a senadora e ex-guerrilheira luta para conquistar votos nas eleições legislativas da Colômbia, a última cartada política do partido das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) para evitar seu desaparecimento.
Conhecida em tempos de guerra como Griselda Lobo, a dirigente de 63 anos é senadora desde 2018 graças ao acordo de paz que desarmou o outrora grupo rebelde mais poderoso do continente. O pacto garantiu 10 assentos no Congresso bicameral, sem necessidade de voto popular, para seus ex-combatentes durante dois mandatos legislativos que terminam este ano.
Após mais de meio século tentando, sem sucesso, tomar o poder pelas armas, as extintas Farc lutam para sobreviver na democracia.
O partido Comunes (Comuns), que surgiu do acordo de 2016, sofreu reveses em todas as eleições, incluindo as regionais, nas quais não conseguiu eleger governadores, nem prefeitos.
Ramírez iniciou uma campanha inédita para manter seu assento na eleição legislativa de 8 de março, em meio ao estigma que ainda pesa sobre os ex-guerrilheiros em um país marcado por mais de seis décadas de conflito armado.
A AFP a acompanhou em um comício em Bogotá, onde a senadora tirava fotos com simpatizantes durante um show de rap para conquistar eleitores jovens de setores populares.
"Conquista votos não tem sido fácil", confessa a política, que na guerrilha foi companheira de Manuel Marulanda Vélez, conhecido como Tirofijo (Tiro certo), cofundador e primeiro comandante das Farc.
- "Tensão irreconciliável" -
Ramírez evita os logotipos do Comunes e utiliza os de Fuerza Ciudadana (Força Cidadã), um partido que faz parte de uma coalizão de esquerda. Alguns grupos políticos têm rejeitado esses símbolos para evitar sua associação com a antiga guerrilha.
O Comunes competirá em igualdade de condições com dezenas de partidos e precisa de cerca de 750 mil votos para manter o reconhecimento oficial em uma eleição com mais de 41 milhões de eleitores habilitados.
Em 2018 e 2022, o partido se apresentou nas urnas para medir sua aceitação e obteve apenas 0,3% e 0,1% dos votos, respectivamente.
Ramírez é a única candidata do Comunes ao Senado. Outros 16 membros do partido concorrem à Câmara Baixa em uma disputa na qual a direita busca recuperar terreno no Congresso e voltar à Presidência em substituição ao esquerdista Gustavo Petro.
A participação política dos membros das Farc esteve no centro das negociações do histórico acordo, que permitiu a reincorporação à vida civil de cerca de 13 mil combatentes e colaboradores da guerrilha marxista.
Cada voto conta para os ex-combatentes que fazem campanha enquanto reconhecem crimes atrozes perante o tribunal da paz, onde os juízes oferecem penas alternativas à prisão para aqueles que dizem a verdade e reparam os danos causados às vítimas.
Duas posturas que se enfrentam na esfera política, segundo especialistas.
Na Colômbia persiste uma "tensão irreconciliável" entre os opositores ao acordo de paz e candidaturas como a de Ramírez, diz Rafael Quishpe, pesquisador das universidades de Giessen, na Alemanha, e dos Andes, em Bogotá.
- Dez anos do acordo -
A violência política obscurece a eleição devido a vários ataques contra candidatos. O pior deles foi o sofrido pelo senador de direita Miguel Uribe, que morreu em agosto em um atentado. Um dos suspeitos é Iván Márquez, ex-número dois das Farc que voltou a pegar em armas após a assinatura do acordo de paz.
Dez anos após o acordo, Ramírez e a maioria dos desmobilizados garantem continuar comprometidos com o que foi pactuado. Mas nas redes sociais ele enfrenta insultos de cidadãos que não perdoam seu passado na guerrilha, nem as acusações que pesam contra ele sobre o recrutamento de menores.
O último comandante das Farc e atual líder do partido Comunes, Rodrigo Londoño, "Timochenko", e os demais membros da cúpula foram condenados, em setembro, a oito anos de trabalhos sociais e restrições de liberdade por mais de 21 mil sequestros.
Também aguardam sentenças por outros crimes contra a humanidade e crimes de guerra.
Apesar das dificuldades, a senadora considera que o partido "vai continuar", ainda que não seja "a passos largos".
"Os oito anos no Congresso valeram a pena", afirma. Acabar com a "longa noite de guerra é, sim, possível".
Para Quishpe, esta eleição será um termômetro para determinar se os ex-membros das Farc "conseguiram colher algumas bases políticas".
A.Magalhes--PC