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Outro caminho é possível para a IA, afirma jornalista Karen Hao
Outro modelo de desenvolvimento da inteligência artificial é possível, um modelo mais íntegro, mais focado e menos consumidor de energia, afirma a jornalista Karen Hao, autora do livro 'Empire of AI'.
Seu livro é uma pesquisa que a levou à lista das 100 personalidades mais influentes em matéria de IA em 2025, segundo a revista americana Time.
Pergunta: Uma seção inteira do seu livro é dedicada às consequências da corrida entre os gigantes digitais provocada pela Open AI para alcançar a IA geral.
Resposta: "O custo ambiental é extraordinário e se deve à necessidade de acelerar a extração dos metais necessários para as placas gráficas.
Pensa-se que a colonização pertence ao passado, mas para os indígenas que vivem no deserto do Atacama (norte do Chile), é o presente. Seus recursos são saqueados.
Cobre para os cabos condutores e componentes eletrônicos dos centros de dados, lítio para as baterias dos geradores de emergência que alimentam esses centros de dados. O outro aspecto é o impacto ambiental da atividade dessas estruturas, em energia e água".
P: Você também aborda o custo social, especialmente para os trabalhadores de países em desenvolvimento cuja tarefa é rotular os conteúdos.
R: "As empresas de tecnologia recrutam mão de obra principalmente no Sul Global e em comunidades economicamente vulneráveis para diferentes tarefas destinadas a melhorar os modelos de inteligência artificial. Para o meu livro, entrevistei trabalhadores quenianos que faziam isso para a OpenAI.
No Quênia, encontrei um homem chamado Mophat Okinyi. Esse trabalho o destruiu espiritual e mentalmente. E o mais difícil era que ele não conseguia explicar à sua esposa e enteada por que sua personalidade estava começando a mudar (...) Ele não tinha mais intimidade com sua esposa. Só sentia vergonha, vergonha de dizer que seu trabalho consistia em ler conteúdos sexuais o dia inteiro".
P: O objetivo da OpenAI e de outros gigantes da tecnologia é criar uma inteligência artificial geral (IAG). O que é a IAG?
R: "Há uma piada clássica na OpenAI: se você perguntar a 13 pesquisadores qual é a definição (de IAG), obterá 15 respostas diferentes. E isso ocorre porque não há consenso científico sobre o que é a inteligência humana.
No entanto, a OpenAI tem uma definição explícita: a IAG representa sistemas altamente autônomos mais eficientes que os humanos em tarefas de maior valor econômico. Portanto, eles afirmam claramente que buscam criar uma máquina que automatize o trabalho humano".
P: Sobre as capacidades reais desses modelos, você diz que há uma discrepância entre a realidade e o marketing.
R: "Sim, e um dos aspectos mais preocupantes sobre o desenvolvimento da IA é que a capacidade de avaliar a tecnologia atual, seu funcionamento e seus limites, está comprometida porque a maioria das eminências (em matéria de IA) deixou as universidades e os institutos de pesquisa independentes para ir para o setor privado.
É como se estivéssemos falando de especialistas em clima financiados por indústrias fósseis: pensaríamos que é difícil ter uma visão clara da crise climática".
P: Na sua opinião, é possível fazer de outra forma?
R: "Eu defendo veementemente que nos afastemos da busca pela inteligência artificial geral e pela busca por uma 'máquina que faça tudo', e nos concentremos em sistemas de IA que realizem tarefas específicas.
Para progredir, a sociedade precisa de pessoas mais instruídas, melhor saúde, ar puro e água potável. (Com a IA) seria possível, por exemplo, criar novos materiais para baterias e soluções para armazenar melhor a energia, o que permitiria integrar mais energias renováveis nas redes energéticas.
Poderíamos então reduzir significativamente os recursos necessários para a IA e ter um desenvolvimento muito mais benéfico".
A.P.Maia--PC