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Medo do hantavírus revive teorias da conspiração sobre pandemia de covid
Um surto do mortal hantavírus em um cruzeiro reacendeu teorias conspiratórias sobre vacinas, supostas campanhas de despovoamento e curas milagrosas que proliferaram durante a pandemia de covid-19.
A desinformação multilíngue, que dominou o discurso na internet e alterou as respostas de saúde pública diante do coronavírus, ressurgiu mesmo quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) insistiu nesta sexta-feira (8) que o risco representado pelos passageiros do MV Hondius para o restante da população é mínimo.
"ALERTA DE CONFINAMENTO: Os globalistas lançam a covid 2.0 enquanto o hantavírus se espalha pelo mundo", disse o fundador do InfoWars, Alex Jones, no X.
Uma onda de publicações semelhantes declarou que o surto era uma "plandemia", em referência a "plandemic", o título em inglês de um pseudodocumentário de 2020 amplamente desacreditado que difundia falsidades sobre o coronavírus.
A principal hipótese dos especialistas aponta que um passageiro contraiu a doença respiratória antes de embarcar na Argentina e, já a bordo, contaminou outros.
No entanto, uma análise da AFP encontrou alegações generalizadas que acusam uma sinistra conspiração para impor vacinas à população, obrigar as pessoas a se confinarem e até influenciar as eleições de novembro nos Estados Unidos para justificar o uso ampliado do voto por correspondência. Os negacionistas eleitorais afirmam, sem provas, que esse método de votação seria fraudulento.
"A ressurreição quase imediata das teorias conspiratórias da era da covid-19 é um lembrete de que a desinformação não desaparece simplesmente quando termina a crise que a gerou", disse Yotam Ophir, diretor do laboratório de Efeitos Midiáticos, Desinformação e Extremismo da Universidade de Buffalo.
Segundo Ophir, durante a pandemia de covid, a desinformação sobre temas de saúde se entrelaçou ainda mais com a identidade política, de modo que a narrativa sobre manipulação eleitoral "ativa crenças já existentes".
Outras publicações resgataram artigos antigos sobre possíveis vacinas contra o hantavírus, comentários do bilionário Bill Gates durante a pandemia e uma série de televisão fictícia da década de 1990 como prova de que o hantavírus foi liberado intencionalmente para reduzir a população ou para que fabricantes de vacinas ganhem dinheiro.
Alguns chegaram inclusive a afirmar que o hantavírus era um efeito colateral das vacinas contra a covid-19 da Pfizer, ao distorcer um documento que apenas indicava que ele era um dos muitos "efeitos adversos de interesse especial" submetidos a monitoramento, e não algo causado pela injeção.
Ophir assinalou que muitas das teorias conspiratórias que agora ressurgem são antigas, algumas remontando a temores de séculos atrás de que doenças eram fabricadas pelas elites.
Mas agora elas se espalham com maior rapidez, impulsionadas pelos algoritmos das redes sociais e às vezes alimentadas por vozes antivacina instaladas em altos cargos de governos como o dos Estados Unidos.
- Sem tratamento específico -
Não existem vacinas aprovadas nem curas conhecidas para o hantavírus, que geralmente é transmitido por roedores infectados e pode causar problemas respiratórios e cardíacos, além de febre hemorrágica.
No entanto, médicos antissistema e alguns políticos promoveram imediatamente na internet o medicamento antiparasitário ivermectina e outros remédios como supostas curas.
A ex-deputada americana Marjorie Taylor Greene — que publicou que o vírus era uma "arma biológica" liberada para que as farmacêuticas pudessem lucrar com vacinas "veneno" — ecoou as alegações sobre a ivermectina da otorrinolaringologista Mary Talley Bowden, cuja difusão de informações falsas foi verificada pela AFP.
"Há uma desinformação extrema sobre a ivermectina", disse à AFP John Lednicky, virologista da Faculdade de Saúde Pública e Profissões da Saúde da Universidade da Flórida.
"Fora dos testes de laboratório, a ivermectina não demonstrou ser eficaz para tratar infecções".
Ophir afirma que a promoção de teorias conspiratórias da época da covid pode ser um esforço para ganhar favor político e também pode ser motivada economicamente.
Ele inclusive assinalou à AFP que "influenciadores, grupos em redes sociais ou usuários controlados por IA poderiam aproveitar a ocasião para ganhar algum dinheiro", em meio à ansiedade e à confusão provocadas pelo atual surto.
V.Dantas--PC