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'Temos que abandonar os combustíveis fósseis', diz à AFP chefe de negociações da COP31
O próximo presidente das negociações da COP31 disse à AFP, nesta segunda-feira (8), que a guerra no Oriente Médio destacou a necessidade de "abandonar os combustíveis fósseis" e repudiou as críticas de que a cúpula climática da ONU estaria perdendo relevância.
Chris Bowen, que também é ministro de Clima e Energia da Austrália, afirmou que a nova preocupação sobre o suprimento mundial de combustível, à medida que Irã e Israel lançam novos ataques, só "demonstra os riscos" da dependência dos combustíveis fósseis.
"A boa notícia é que a resposta para a crise no curto prazo e a crise no longo prazo é, em essência, a mesma: quer dizer, distanciar-se da dependência de uma fonte de energia que... Só vai se tornar menos confiável", disse Bowen à AFP em uma entrevista exclusiva à margem das sessões climáticas intermediárias da ONU em Bonn.
"Temos que abandonar os combustíveis fósseis", reforçou.
O ministro australiano tem a missão de conduzir os diálogos de novembro com o objetivo de romper com a estagnação em torno dos combustíveis fósseis que caracterizou as últimas COP.
- "Resultado sólido" -
Bowen não só enfrenta um choque do petróleo histórico, mas também uma coalizão revitalizada de países que exigem uma eliminação mais rápida dos combustíveis fósseis, o principal motor do aquecimento global provocado pelo ser humano.
A organização da próxima COP31 corresponde à Turquia, que também a presidirá, mas Bowen dirige os longos diálogos em virtude de um acerto incomum alcançado depois que Canberra e Ancara competiram para sediar a cúpula climática mais importante do mundo.
Nos próximos meses, deverá estabelecer as bases para um consenso entre quase 200 países, mesmo enquanto a guerra sacode os mercados de energia, as nações se apressam em assegurar suprimentos de combustível e as mudanças climáticas perdem prioridade na agenda.
Bonn é o lugar onde os negociadores governamentais se reúnem em junho para polir os detalhes técnicos e reduzir as diferenças sobre a ação climática global antes que os líderes abordem decisões mais profundas na COP31.
"Estamos falando com as partes sobre o que querem ver e tentaremos direcionar isto para um resultado muito sólido", disse Bowen, que assistiu às últimas quatro COPs como ministro do governo de centro-esquerda do primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese.
A cúpula do ano passado, realizada em Belém do Pará, terminou com um pacto modesto que não mencionou explicitamente os combustíveis fósseis, e muitos países temem uma repetição a menos que se exerça uma liderança mais firme.
Nesta segunda-feira, a Aliança dos Pequenos Estados Insulares, vulnerável ao clima, afirmou que os países não podiam continuar ignorando "o elefante na sala" e advertiu que qualquer coisa que não seja reduzir os combustíveis fósseis é "maquiar as rachaduras".
- "Trabalho duro" -
Frustrados com a falta de avanços na última cúpula, quase 60 países assistiram, em abril, na Colômbia, a uma reunião sem precedentes no mundo dedicada a acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis, à margem do processo da ONU.
Bowen disse que a conferência dissidente em Santa Marta foi "uma contribuição positiva", mas não informou quando suas preocupações poderiam ser incorporadas ao resultado final negociado.
"O consenso chega em novembro com trabalho duro. Não aceitei este trabalho porque pensei que seria fácil, não vim aqui para fazer as coisas fáceis. Aceitei este trabalho porque é difícil", afirmou.
Muitos países têm criticado o modelo baseado no consenso, pelo qual as decisões nas COPs podem ser bloqueadas por um pequeno punhado de países, mas Bowen destacou que "é o que temos. E isso não vai mudar".
Ele disse que os países, grandes e pequenos, seguem sendo, em certa medida, dependentes dos combustíveis fósseis, inclusive a Austrália, que é um importante exportador de carvão e gás, mas depende em grande medida das importações de gasolina, diesel e outros combustíveis.
Bowen cancelou sua primeira viagem ao exterior como chefe das negociações da COP31 em abril, quando uma refinaria de petróleo pegou fogo na Austrália.
"Historicamente, a Austrália é, sem dúvida, um vilão climático, mas também pode usar sua condição de grande produtor de combustíveis fósseis para liderar a conversa sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis", declarou à AFP, em Bonn, Simon Bradshaw, encarregado da COP31 no Greenpeace Austrália Pacífico.
Bowen destacou que todos os países "têm um perfil de combustíveis fósseis" e que "estamos todos juntos nisto".
"Não é só tarefa dos importadores. Não só é tarefa dos exportadores. Para isso serve uma COP: para reunir todas as partes", acrescentou.
As COPs "enviam um sinal ao restante do mundo" de que o tema está sendo levado a sério, afirmou.
"Temos que dar um sinal muito positivo. Estou convencido de que podemos fazê-lo", disse.
L.Carrico--PC