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Triunvirato, petróleo, Nobel: para onde caminha a Venezuela?
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, capturou o mandatário venezuelano, agora deposto, Nicolás Maduro, mas seu governo permanece de pé e acenando para Washington, dono do jogo, enquanto a líder da oposição María Corina Machado tenta voltar à partida.
Após meses de presença militar no Caribe, a operação americana de 3 de janeiro terminou com a captura de Maduro no centro de Caracas.
Sua vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumiu a Presidência interinamente em seu lugar e, sob pressão de Trump, concedeu acordos petrolíferos, libertou opositores presos e retomou a recepção de voos com deportados vindos dos Estados Unidos.
- Triunvirato -
Após a captura de Maduro, o chavismo, no poder desde 1999 com Hugo Chávez e desde 2013 com Maduro, mostra uma frente unida.
Delcy Rodríguez; seu irmão Jorge, presidente da Assembleia Nacional, e o poderoso ministro do Interior, Diosdado Cabello, considerado o braço radical da revolução bolivariana, aparecem juntos nas cerimônias oficiais.
Do chamado "clube dos cinco" (completado por Maduro e sua esposa, Cilia Flores, também detida pelos Estados Unidos), passou-se a um triunvirato.
"Aos que ficaram no governo, (o que) lhes resta é trabalhar juntos" em uma agenda imposta pelos Estados Unidos para evitar um novo ataque, opina Benigno Alarcón, professor da Universidade Católica Andrés Bello. Dividir-se poderia custar caro, acrescentou.
Andrés Izarra, ex-ministro de Chávez, sustenta que, na prática, "o triunvirato é uma ilusão de ótica", dado que a ala dura, representada por Cabello, "perdeu a partida".
Para Elías Ferrer, diretor da consultoria Orinoco Research, os Rodríguez "têm que incluir (Cabello) porque continua tendo muito poder, mas na verdade os atores que estão ditando o ritmo agora são Delcy, Jorge e (o ministro da Defesa) Vladimir Padrino, ou seja, o setor militar que não é o de Diosdado".
O ataque "foi possível graças ao fato de ter havido colaboração dentro da Venezuela, por parte dos militares", acrescenta.
- O que Trump quer? -
"Trump não busca a democracia: busca petróleo e estabilidade a baixo custo. Uma verdadeira transição democrática implicaria eleições, incerteza, tempo. Trump não tem tempo: sua janela se fecha em 2028. Uma democracia poderia votar por opções que não lhe convêm", ressalta Izarra.
"Delcy oferece exatamente o que [ele] precisa: alguém que conhece o aparato, pode garantir o fluxo de petróleo, não tem legitimidade popular e, portanto, depende totalmente de Washington para sobreviver. Sua fraqueza é seu valor", acrescenta.
Alarcón acredita, por sua vez, que o presidente americano não quer repetir os "erros do Iraque", no qual Washington derrubou partidários de Saddam Hussein e se deparou com um país ingovernável.
Trump "busca evitar instaurar um governo" ao qual teria de "dar apoio com tropas na Venezuela". "Os chavistas sempre estarão lá, mesmo que sejam minoria. O problema é ter instituições que respondam ao Estado e não a uma facção", ressalta.
- María Corina Machado -
Vencedora do Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado representa certa legitimidade: muitos observadores consideram que a oposição venceu as presidenciais de 2024, nas quais Maduro foi declarado vencedor apesar das acusações de fraude.
No entanto, Trump, a quem Machado entregou a sua medalha do Nobel, disse que ela não estava qualificada para governar.
Alarcón ressalta que, para além do discurso, "[o mandatário] recebeu-a na Casa Branca com as quatro figuras principais da administração: o chefe de gabinete, o secretário de Estado e o vice-presidente, e tiveram um almoço de duas horas", demonstrando que o tratamento reflete a importância da venezuelana como figura política.
- Petróleo -
Delcy Rodríguez prometeu reformar a lei de hidrocarbonetos, enquanto a PDVSA, a gigantesca petrolífera estatal, negocia a venda do petróleo aos EUA.
O embargo imposto em 2019 por Trump no seu primeiro mandato continua em vigor.
"É preciso ver o que acontece com as sanções. Trump vai permitir que todos invistam ou só vai deixar a ExxonMobil, a ConocoPhillips e a Chevron [todas americanas]?", questiona Ferrer.
Segundo o especialista, já existe "um modelo de produção rentável", com as reservas e grande parte da infraestrutura construída. Até mesmo repará-la seria menos custoso do que começar do zero.
"Um petroleiro me disse que há um milhão de barris por dia adicionais que podem ser produzidos", comenta.
Mas Alarcón destaca que, com o fantasma do processo de expropriações impulsionado por Chávez, a reforma da lei de hidrocarbonetos é algo "necessário com Delcy ou qualquer outra pessoa à frente do governo".
"Se quisermos ativar a indústria petrolífera venezuelana com investimento estrangeiro, é preciso proteger esse investimento estrangeiro, caso contrário ninguém vai querer vir", explica Alarcón.
N.Esteves--PC