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'Anunciaram a morte do salário': política de bonificações é rejeitada na Venezuela
"O que anunciaram foi a morte do salário!", gritavam sindicalistas e aposentados nesta terça-feira (2), em uma manifestação contra a política do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, de aumentar as ajudas sociais mensais sem aumentar o salário mínimo, o mais baixo da América Latina.
"Ontem foi decretada a morte do salário, um salário que está em 5 dólares (R$ 25 reais), com uma inflação que avança (...), deixaram que desaparecesse", questionou o sindicalista Eduardo Sánchez no protesto, em Caracas.
Maduro decretou um aumento do bônus de alimentação para US$ 40 (R$ 201) por mês e fixou o chamado "bônus de guerra econômica" em US$ 30 (R$ 151), um total de US$ 70 (R$ 352), que serão pagos na moeda local, o bolívar, embora tenha prometido indexá-los à taxa de câmbio oficial.
O salário mínimo é de 130 bolívares mensais (US$ 5,25, R$ 26,4), o menor da região, mais baixo, inclusive, que o de Cuba (US$ 17,5, R$ 88). Em vizinhos como Colômbia e Brasil, o mínimo é de US$ 285 (R$ 1.434) e US$ 262 (R$ 1.320), respectivamente.
"Estamos fazendo um esforço tremendo para defender a renda dos trabalhadores em meio a uma guerra econômica brutal que vocês sabem que enfrentamos", justificou Maduro nesta terça-feira, referindo-se às sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela.
- 'Genocídio' -
Os bônus não afetam os benefícios trabalhistas como férias ou 13º salário, e não atingem toda a população da mesma forma. "É um aumento que não é muito universal, porque há pessoas que não o recebem", explica o economista Leonardo Vera, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV).
O bônus de alimentação, por lei, deve ser pago a todos os funcionários na ativa, mas o bônus de “guerra” está vinculado ao Sistema Pátria, site onde são administrados subsídios do governo e programas sociais, e que nem todos os venezuelanos assinam.
Pensionistas e aposentados, por exemplo, recebem o salário mínimo sem bonificação de alimentação, por não estarem em atividade.
Sindicalistas pedem a repetição dos protestos a partir da próxima segunda-feira. "Não iremos nos calar diante de sua zombaria, seu genocídio, não queremos que continue roubando cada um dos trabalhadores do país", disse Hugo Valera, funcionário aposentado do Metrô de Caracas.
- Poder de compra -
Com uma inflação anual superior a 500%, segundo o Observatório Financeiro da Venezuela, e uma cesta básica média de US$ 510 (R$ 2.566), segundo estimativas privadas, a maioria dos funcionários públicos sofrem com as dificuldades financeiras.
"Para que serve esse aumento? Para nada, quem faz compras com 40 dólares?", questionou Johana Sánchez, 39, comerciante de um dos principais mercados do leste de Caracas.
Os consumidores concordam. "Nisso aqui eu gastei 33 dólares (R$ 166): farinha (de milho), arroz, óleo, atum, o principal", disse José Carreño, estofador de 58 anos, que sustenta uma família de seis pessoas e gasta entre US$ 600 e US$ 700 (entre R$3.000-3.520) mensalmente com alimentação.
- Crise fiscal -
O aumento salarial anterior ocorreu em março de 2022. Naquela época, equivalia a pouco menos de US$ 30 dólares (R$ 154, na conversão da época), mas a moeda venezuelana desvalorizou-se 82% desde então.
Leonardo Vera sustenta que a decisão do governo de se limitar a ajustar as ajudas sociais se deve ao fato de que "tem uma crise fiscal em cima disso". Os escândalos de corrupção na estatal petroleira PDVSA e em outras estatais, destaca o especialista, aumentam o descontentamento.
De fato, "essa perseguição contra um clã que vinha tirando recursos da PDVSA por meio desses intermediários tem a ver com uma preocupação genuína de que os recursos não estão entrando, não há recursos", afirma Vera. É possível, acrescenta, que haja medo de que um aumento salarial gere pressões inflacionárias.
S.Pimentel--PC