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No que consiste o escândalo de criptomoedas que envolve Milei e choca a Argentina?
O escândalo "criptogate", que abala o universo político argentino, teve início após o presidente Javier Milei, um economista ultraliberal que se orgulha de ter contido a inflação endêmica na Argentina, promover "de boa fé" uma criptomoeda que colapsou em apenas duas horas e causou perdas bilionárias.
- O que ocorreu? -
Na sexta-feira à tarde, Milei promoveu (ou divulgou, segundo sua versão) nas redes sociais a "memecoin" $LIBRA. "Este projeto privado se dedicará a incentivar o crescimento da economia argentina", escreveu o mandatário.
Lançada no mesmo dia, a criptomoeda atingiu, após o tuíte, um valor de quase 5 dólares e desabou 90% em duas horas. Milei, então, apagou a publicação inicial e disse que "não estava inteirado dos detalhes do projeto".
A moeda movimentou, nesse intervalo, "mais de 4,5 bilhões de dólares" (R$ 25,6 bilhões), disse Javier Smaldone, especialista em informática e influenciador digital reconhecido por denunciar fraudes de esquema de pirâmide.
O valor que os investidores perderam "é algo subjetivo e difícil de estimar", afirmou à AFP. Atualmente, essa cifra é estimada em 250 milhões de dólares (R$ 1,42 bilhão).
Foram apresentadas dezenas de denúncias contra Milei e outros envolvidos, tanto na Argentina quanto nos Estados Unidos, e congressistas de oposição disseram que iniciariam um procedimento de impeachment por "criptofraude".
- Quais são as consequências políticas?
Deputados da coalizão opositora União pela Pátria (peronismo) anunciaram que irão impulsionar um processo de impeachment contra o presidente, embora estejam longe de ter os votos necessários para que procedimento prospere.
Essa possibilidade, "de 0 a 10, é zero", disse o analista político Carlos Germano à AFP.
Outros defendem a criação de uma comissão investigativa, uma iniciativa mais viável, e há uma terceira proposta promovida pela esquerda para interpelar o presidente. Esta última opção iria expor o presidente às perguntas do Congresso, que Milei, definiu como um "ninho de ratos" no passado.
O PRO, partido aliado de Milei, liderado pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), classificou o caso como "muito grave" e avaliou que "impactou na credibilidade do país". No entanto, declinou apoiar a iniciativa de impeachment "nesta instância".
"Claramente, o presidente ficou no meio de uma fraude para muita gente e isso merece uma investigação muito séria", disse Macri.
Em meio à polêmica, a bolsa argentina (Merval) despencou 5,58% na segunda-feira.
- Quais são os riscos jurídicos para Milei?
Para levar adiante um impeachment contra o presidente, são necessárias maiorias qualificadas de dois terços em ambas as câmaras.
O advogado Adolfo Suárez Erdaire, especializado em fraudes digitais e que investiga o caso, disse à AFP que mesmo que Milei sofra um impeachment, "a única pena que o presidente teria no âmbito político seria a destituição e a inabilitação para voltar a ocupar cargos públicos".
Mas após o fim de seu mandato, ele poderia enfrentar, na justiça comum, acusações com penas de até seis anos de prisão, além de processos civis de reparação para os prejudicados.
"Ele tem um risco legal latente, porque os processos judiciais sempre ficam", explicou.
- Quem são os envolvidos?
Além de Milei, o caso envolve o americano Hayden Mark Davis, CEO da empresa Kelsier Ventures e um dos criadores da $LIBRA; o singapurense Julian Peh, que criou o site "vivalalibertadproject.com", a partir do qual a moeda foi lançada; e o argentino Mauricio Novelli, fundador do fórum tecnológico onde se reuniram com o presidente em outubro em Buenos Aires.
O próprio Milei informou no X que teve um encontro "muito interessante" com Davis em 30 de janeiro na Casa Rosada. "Ele me deu conselhos sobre o impacto e as aplicações da tecnologia blockchain e inteligência artificial no país", escreveu.
Novelli é também cofundador da N&W Professional Traders, uma empresa que oferece cursos de formação financeira e na qual Milei deu aulas antes de entrar para a política. "Eu o conheço há anos", disse o presidente.
- O que Milei diz?
Na noite de segunda-feira, o canal TN publicou uma entrevista com o presidente ultraliberal gravada na mesma tarde. "Eu não o promovi, eu o divulguei", disse Milei, que disse ter agido "de boa fé" ao dar publicidade à criptomoeda $LIBRA.
"Por querer dar uma mão aos argentinos, tomei um tapa", afirmou o presidente, ao garantir que as pessoas que investem em criptoativos "sabiam muito bem o risco do que estavam fazendo", como alguém que vai "a um cassino".
"Um cassino onde as máquinas são manipuladas pelo dono", ironizou Smaldone sobre a metáfora.
Um trecho editado da entrevista viralizou nas redes e gerou mais controvérsia, porque o presidente e o jornalista comentam de forma irônica que as perguntas foram preparadas de antemão.
Pouco depois, o jornalista mudou uma pergunta a pedido dos assessores de Milei, após notar que o questionamento poderia gerar um "quilombo [bagunça] judicial" para o presidente.
P.Sousa--PC