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Centros de fraude cibernética se espalham em Mianmar com internet via satélite de Musk
Os centros de fraude de Mianmar, acusados de desviar bilhões de dólares de pessoas ao redor do mundo, estão se expandindo rapidamente e agora utilizam antenas do serviço de internet via satélite Starlink de Elon Musk, segundo estabelecido por uma investigação da AFP.
Embora os governos da região pressionem para acabar com eles, a construção desses complexos de casas cercadas por arame e guardadas por homens armados continua de forma desenfreada em Myawaddy, perto da fronteira com a Tailândia.
As imagens de satélite e as gravações feitas com drones pela AFP ilustram a expansão desses centros. E mostram longas filas de antenas da Starlink em alguns dos telhados.
Nas terras inóspitas do Triângulo de Ouro - a zona fronteiriça entre Mianmar, Tailândia, China e Laos -, organizações criminosas principalmente chinesas empregam centenas de milhares de trabalhadores, em muitos casos de forma forçada.
A região é um foco de produção de ópio e anfetaminas, tráfico de drogas, contrabando, jogos clandestinos e lavagem de dinheiro. Além disso, a corrupção e as desordens causadas pela guerra civil em Mianmar permitiram que as organizações criminosas expandissem suas atividades.
Sentados atrás de uma tela ou de um telefone, eles roubam bilhões de dólares todos os anos de internautas, convencendo-os de que encontraram um investimento lucrativo ou o amor de suas vidas.
Um alto oficial policial da Tailândia estimou em março que pelo menos 100.000 pessoas trabalhavam nesses complexos na fronteira birmanesa.
Algumas delas, originárias da Ásia, África ou Oriente Médio, mostraram aos jornalistas da AFP as cicatrizes das feridas e golpes que receberam dos responsáveis por essas redes.
"Quase todos que estavam lá foram espancados em algum momento, seja por se recusar a trabalhar ou por tentar escapar", explicou Sun, um chinês de 25 anos que pediu anonimato.
Ele foi libertado em fevereiro em uma operação que permitiu resgatar milhares de chineses daquele local. Ele havia sido recrutado em junho de 2024, em seu vilarejo a cerca de 100 quilômetros de Mianmar, com a promessa de vender produtos chineses pela internet.
Ao chegar a Myawaddy, ficou "aterrorizado". "Eu não parava de suplicar de joelhos que me deixassem partir", lembra esse pai de uma criança.
No entanto, foi vendido para outro centro por cerca de 20.000 dólares. Depois foi "revendido" várias vezes antes de ser libertado em fevereiro e enfim retornar ao seu povoado.
- Antenas da Starlink -
Cerca de 7.000 pessoas, em sua maioria chineses, foram libertadas em operações contra esses complexos de chamadas que, segundo a ONU, recorrem ao trabalho forçado e ao tráfico de pessoas.
Sob pressão da China, Tailândia e Mianmar, as milícias birmanesas aliadas à junta militar, que garantem a proteção desses centros de fraude cibernética, prometeram em fevereiro "erradicá-los".
Mas apenas algumas semanas após essas operações policiais amplamente divulgadas, as obras de construção foram retomadas em vários dos centros localizados ao longo do rio Moei, que constitui a fronteira com a Tailândia.
As imagens de satélite mostram que as antenas parabólicas da Starlink proliferaram nesses meses para compensar os cortes de internet decretados pelas autoridades tailandesas.
Com pouca atividade em Mianmar em fevereiro, a empresa de Musk é, desde meados de junho, um dos dois principais fornecedores de acesso à internet no país, segundo o Registro de Internet da Ásia-Pacífico (Apnic).
No final de julho, uma comissão do Congresso dos Estados Unidos abriu uma investigação para determinar o papel desempenhado pela Starlink no acesso à internet dos centros de fraude, informou um porta-voz à AFP.
Esse órgão tem a autoridade de convocar o homem mais rico do mundo, que atuou como conselheiro do presidente Donald Trump no início de seu segundo mandato, para depor.
A SpaceX, empresa matriz da Starlink, não respondeu às solicitações de comentários.
A análise das imagens de satélite da Planet Labs PBC feita pela AFP revelou que, entre março e setembro, dezenas de infraestruturas foram construídas ou modificadas no maior dos complexos, o KK Park.
As gravações aéreas do KK Park feitas por jornalistas da AFP em setembro confirmam que as obras continuam: é possível ver trabalhadores em grandes construções, gruas e andaimes.
A AFP também observou novas construções ou adaptações em vários dos outros 26 centros fraudulentos nos arredores de Myawaddy, entre eles os de Shwe Kokko, classificados como "famosos" pelo Tesouro dos Estados Unidos.
No mês passado, os Estados Unidos sancionaram nove pessoas relacionadas a Shwe Kokko e ao líder criminoso chinês She Zhijiang, fundador do centro comercial de vários andares Yatai New City.
B.Godinho--PC