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Combates se intensificam no Sudão apesar da prorrogação de cessar-fogo
Os combates entre o Exército do Sudão e os paramilitares se intensificaram nesta quinta-feira (27) na capital, Cartum, e na região de Darfur, apesar de ambas as partes anunciarem a prorrogação do cessar-fogo que expirava à meia-noite.
Pouco antes do fim do cessar-fogo, o Exército e as Forças de Apoio Rápido (FAR) anunciaram a prorrogação da trégua por 72 horas, em resposta a "uma iniciativa da Arábia Saudita e dos Estados Unidos".
Em uma declaração conjunta, Estados Unidos, Arábia Saudita, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, a União Africana e a ONU elogiaram a ampliação do cessar-fogo e pediram "sua implementação plena" e "um acesso humanitário desimpedido".
O primeiro cessar-fogo permitiu a evacuação de milhares de estrangeiros e sudaneses, apesar de não ter interrompido os tiros de artilharia ou os bombardeios aéreos em Cartum.
Antes deste primeiro acordo, diversas tentativas de frear os hostilidades iniciadas em 15 de abril haviam fracassado.
"Ouvi bombardeios intensos do lado de fora da minha casa", disse um morador da capital sudanesa nesta quinta-feira.
- Saques e assassinatos em Darfur -
O conflito envolve as tropas do general Abdel Fatah al Burhan - que preside o país desde o golpe de 2021 - e os paramilitares liderados pelo general Mohamed Hamdan Daglo.
Ambos os generais frustraram as esperanças de uma transição democrática ao unir forças para derrubar o poder civil em 2021. Hoje, estão em guerra por divergências sobre a integração das FAR ao Exército sudanês.
De acordo com o Ministério da Saúde do Sudão, ao menos 512 pessoas morreram e 4.193 ficaram feridas em treze dias, mas o balanço real provavelmente é mais elevado.
Além da capital, a violência arrasa outras regiões do país, em particular na zona oeste de Darfur.
Na capital desta região, El Geneina, foram registrados saques, assassinatos e incêndios em casas, segundo a ONU. A área foi cenário de uma guerra extremamente violenta na década de 2000.
"Hospitais, prédios públicos e centros de saúde foram seriamente danificados e há saques em cada esquina", disse um morador à AFP.
A Organização das Nações Unidas, que interrompeu suas operações após a morte de cinco trabalhadores humanitários, advertiu que não pode mais prestar auxílio em uma área onde "50.000 crianças sofrem de desnutrição grave".
- Êxodo maciço -
Os combates provocaram uma fuga em massa e agravaram a crise em uma das nações mais pobres do mundo, que tem mais 45 milhões de habitantes.
Dezenas de milhares de pessoas fugiram para os países vizinhos: Chade no oeste, Etiópia no leste, Sudão do Sul e República Centro-Africana no sul, e Egito no norte.
O presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, pediu ajuda para estas pessoas que fogem dos combates e um "cessar-fogo permanente para facilitar o envio de ajuda humanitária" à população.
Nos últimos dias, governos estrangeiros organizaram operações terrestres, aéreas e marítimas para evacuar milhares de seus cidadãos.
As pessoas que permanecem no país enfrentam escassez de alimentos, falta d'água e de energia elétrica, além de cortes nas linhas de telefonia e de internet.
O coordenador humanitário interino da ONU no Sudão, Abou Dieng, disse estar "extremamente preocupado com o abastecimento de alimentos".
De acordo com o sindicato dos médicos, 14 hospitais foram bombardeados e outros 19 foram esvaziados por falta de material e funcionários ou porque os combatentes assumiram o controle de áreas próximas.
Em meio ao cenário de caos, centenas de detentos fugiram de três prisões, incluindo o presídio de segurança máxima de Kober, onde estavam presos ex-funcionários de alto escalão do regime deposto de Omar al Bashir.
Entre os foragidos está um integrante do antigo governo que é procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), acusado de crimes contra a humanidade.
Al Bashir foi deposto pelo Exército em abril de 2019, após grande pressão popular.
V.Dantas--PC