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Em Nuuk, groenlandeses lamentam não serem levados em conta em negociações sobre a ilha
Em Nuuk, capital da Groenlândia, a decepção, a frustração e a ira ficaram evidentes um dia após vir a público um projeto de acordo sobre o futuro da ilha negociado sem os groenlandeses por Donald Trump e pelo secretário-geral da Otan.
Com dois copinhos de cappuccino de uma famosa marca americana de café nas mãos, Niels Berthelsen para para conversar apesar do frio glacial que atinge as ruas de Nuuk.
"Se querem fechar acordos sobre a Groenlândia, é preciso convidar a Groenlândia para a mesa de negociações", disse à AFP este capitão de embarcações.
"Nada sobre a Groenlândia sem a Groenlândia", repetiu.
As conversas realizadas na quarta-feira (21), em Davos, na Suíça, entre Trump e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, permitiram chegar a um "marco de acordo", segundo o presidente americano, que insiste em anexar esse território autônomo dinamarquês.
Trata-se de um projeto do qual se sabe pouco, mas que irrita os groenlandeses, preocupados com seu direito à autodeterminação.
"É obviamente positivo que a ameaça militar diminua", afirmou Berthelsen. "Mas seria possível fechar um acordo convidando a Groenlândia para a mesa, em vez de Rutte negociar sozinho um acordo com Trump", disse.
"Isso me parece uma falta de respeito por parte de Rutte", acrescentou.
Por sua vez, Esther Jensen afirmou estar "muito decepcionada" com o fato de a Otan ter fechado qualquer tipo de acordo com Trump sem a Dinamarca nem a Groenlândia.
"Se houver decisões a tomar, elas devem ser tomadas de forma coordenada com a Groenlândia", afirmou.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, declarou que Rutte coordenou com ela e com o governo groenlandês, embora seu ministro da Defesa, Troels Lund Poulsen, tenha ressaltado que "o senhor Rutte, naturalmente, não pode negociar um acordo em nome da Dinamarca ou da Groenlândia".
- Um tempo 'antes de Trump' -
Com coordenação ou não, o vice-primeiro-ministro da Groenlândia, Mute Egede, reafirmou nesta quinta-feira o direito dos cerca de 57 mil groenlandeses de decidir seu futuro.
"Seja qual for a pressão exercida por outros, nosso país não será nem cedido nem objeto de barganhas sobre nosso futuro", escreveu Egede no Facebook.
"É inaceitável tentar ceder nosso país a outros. É o nosso país, somos nós que forjamos seu futuro", insistiu.
Em Nuuk, os groenlandeses se perguntam o que realmente ocorreu em Davos, a estação de esqui suíça onde Trump e Rutte participam do Fórum Econômico Mundial.
"Sabemos bem que Trump tende a superinterpretar certas coisas", comentou Arkalo Abelsen, um aposentado de 80 anos.
"Quando Rutte (...) confirma que falaram de algumas soluções possíveis, isso, na cabeça de Trump, vira um acordo. Mas não é um acordo. Não há acordo nenhum", disse, apoiando-se em uma muleta.
As turbulências do cenário internacional e o interesse crescente por seu território colocam à prova a tranquilidade dos groenlandeses.
"Desde que Trump foi reeleito presidente, já não sabemos o que pode acontecer no dia ou no dia seguinte. Sobretudo quando ele se volta contra o nosso país, como se fosse um pedaço de gelo à deriva no mar. É muito desestabilizador. A gente se sente impotente", afirmou Abelsen.
"Minha esposa e eu falamos disso todos os dias. Dizemos que gostaríamos de voltar no tempo, para antes de Trump. Naquela época, era possível prever o que iria acontecer".
Susan Gudmundsdottir Johnsen, de 52 anos, funcionária de uma agência de viagens, também espera dias menos turbulentos. "A partir de agora, precisamos de calma e serenidade", comentou.
E.Ramalho--PC