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Como nosso sistema imunológico evita atacar o próprio organismo?
O sistema imunológico pode atacar o próprio organismo? E como ele evita isso? A resposta, objeto das pesquisas premiadas nesta segunda-feira (6) com o Nobel de Medicina, permite compreender melhor as doenças autoimunes e também fornece pistas sobre certos tipos de câncer.
O que foi descoberto?
O Nobel de Medicina de 2025 premia a descoberta de um tipo de célula imunológica com uma função única: os "linfócitos T reguladores", conhecidos como "Treg".
Para entender sua função, é preciso lembrar a dupla missão do nosso sistema imunológico. Ele deve detectar o que não está funcionando bem em nosso corpo — por exemplo, uma infecção viral — e destruir a causa.
Mas o corpo não deve voltar-se contra si mesmo e eliminar células saudáveis. Se é capaz de distinguir entre ambas, isso se deve em grande parte às células reguladoras.
"Elas permanecem em prontidão em nosso organismo para manter o sistema imunológico sob controle caso ele ataque o que não deve", disse à AFP Jonathan Fisher, imunologista da University College London, que vê nessa descoberta uma "enorme contribuição" para a compreensão da nossa imunidade.
Como essas células funcionam?
O funcionamento das células reguladoras da imunidade foi descoberto em duas etapas pelos pesquisadores premiados nesta segunda-feira: primeiro, nos anos 1990, pelo japonês Shimon Sakaguchi, que comprovou sua existência, e depois, no início dos anos 2000, pelos americanos Mary Brunkow e Fred Ramsdell, que detalharam seus fundamentos genéticos.
Trata-se de linfócitos T, que constituem uma das duas grandes famílias de células imunológicas, junto com os linfócitos B. Enquanto os B atuam por meio de anticorpos, os T atacam diretamente os invasores do organismo.
Essas células T são geradas no timo, um pequeno órgão situado na parte superior do tórax. Durante sua formação, elas aprendem a não atacar as células saudáveis.
Mas essa etapa não é suficiente: apesar dessa primeira seleção, os linfócitos T se descontrolariam rapidamente se não contassem, entre suas próprias fileiras, com um contingente destinado a controlar a ação de seus semelhantes.
Esses linfócitos reguladores "secretam substâncias que acalmam o sistema imunológico, inibindo os linfócitos assassinos", explica Divi Cornec, imunologista do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Medicina da França.
Quais são as implicações concretas?
Essa descoberta é crucial para entender as doenças autoimunes, nas quais o sistema imunológico se volta contra o próprio corpo.
Em várias doenças autoimunes, como a esclerose múltipla, "foi descoberto que um defeito nos linfócitos T reguladores provocava uma forma mais grave da doença", detalha Cornec.
Mas o impacto da descoberta vai além dessas patologias, ressalta ele.
As células Treg não prejudicam o organismo apenas quando estão em quantidade insuficiente. Elas também podem ter um impacto negativo quando são excessivamente eficazes e impedem o sistema imunológico de cumprir sua função legítima.
Esse é o caso de alguns tipos de câncer, nos quais se detecta um grande número de linfócitos reguladores nos tumores. Também se suspeita da existência de mecanismos semelhantes na persistência de certas infecções, como a covid longa, embora esse mecanismo ainda não tenha sido comprovado.
Em outro campo importante, "os linfócitos T reguladores desempenham um papel crucial na prevenção da rejeição de órgãos transplantados", destaca Cornec.
Que terapias existem?
Muitos pesquisadores buscam agora desenvolver medicamentos a partir do conhecimento sobre os linfócitos T reguladores.
Para combater doenças autoimunes como o lúpus, há duas principais estratégias: estimular a produção dessas células no organismo ou administrá-las diretamente. Na oncologia, também estão em andamento pesquisas para atacar o excesso dessas células reguladoras.
Mas, de modo geral, esses estudos ainda estão em fase inicial e não resultaram em terapias disponíveis aos pacientes.
"Há uma grande diferença entre, por um lado, compreender cientificamente o nosso sistema imunológico ou manipulá-lo em laboratório e, por outro, desenvolver um medicamento que tenha um efeito constante e benéfico nos seres humanos e que, ao mesmo tempo, seja seguro", reconhece Fisher.
L.Henrique--PC