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Paris sedia esta semana cúpula para repensar finanças climáticas
Um novo paradigma financeiro capaz de proteger melhor os países do Sul contra o aquecimento global e o endividamento serão os destaques de uma cúpula internacional em Paris, na quinta e sexta-feiras, com presidentes e outras autoridades, executivos de instituições e especialistas em clima.
A anfitriã França apresenta a "Cúpula por um novo pacto financeiro global" como um laboratório de ideias, capaz de reunir apoios e traçar uma "agenda" para outras reuniões internacionais no curto e médio prazos.
Sobre a mesa, estão ideias como um imposto sobre o comércio marítimo, a ampliação da capacidade de empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de bancos regionais de desenvolvimento, o alívio da dívida dos países mais vulneráveis e uma melhor mobilização do setor privado.
O objetivo é ambicioso: criar músculo financeiro para enfrentar três crises interconectadas, como a luta contra a pobreza, a descarbonização da economia e a proteção da biodiversidade, conforme formulado pelo presidente francês, Emmanuel Macron.
No encontro, precedido na quarta-feira (21) pela reunião anual do Clube de Paris, mais de 80 países estarão representados, e mais de 40 chefes de Estado e governo são esperados. A Rússia não foi convidada.
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, seu homólogo colombiano, Gustavo Petro, e o cubano, Miguel Díaz-Canel, estarão presentes na cúpula, segundo a organização.
Também se espera a presença do primeiro-ministro chinês, Li Qiang, da secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e da vice-presidente do governo espanhol, Nadia Calviño.
O encontro ocorrerá em um contexto de desconfiança dos países do Sul. Seus líderes se queixam de que as nações do Norte dizem não ter dinheiro para ajudar no combate à mudança climática e à pobreza, mas têm recursos para apoiar a Ucrânia, ou resgatar bancos norte-americanos.
"É muito bom falar sobre a arquitetura financeira internacional, mas precisamos de prazos, e no momento não estamos vendo isso", disse à AFP Sara Jane Ahmed, conselheira financeira do V20, um grupo de 58 países vulneráveis, que inclui 11 nações da América Latina e do Caribe.
"Se começarmos a fazer tudo isso na década de 2030, será muito mais caro, e as soluções serão muito mais difíceis", advertiu.
O V20 inclui 11 países latino-americanos e do Caribe, incluindo Costa Rica, Colômbia, Honduras e Nicarágua.
As necessidades são imensas. Um grupo de especialistas independentes criado por iniciativa da ONU estimou que, até 2030, os países em desenvolvimento, excluindo a China, precisarão investir mais de dois trilhões de dólares anualmente (cerca de 9,6 trilhões de reais na cotação de hoje, a R$ 4,80) para lidar com a crise climática.
- Imposto sobre o comércio marítimo -
Mais especificamente, a presidência francesa quer dar "impulso político" à ideia de uma taxa internacional sobre as emissões de carbono do comércio marítimo, poucos dias antes de uma importante reunião da Organização Marítima Internacional (OMI).
Segundo os especialistas, essa taxa poderia arrecadar 20 bilhões de dólares por ano (96 bilhões de reais na mesma cotação).
As discussões abordarão outras iniciativas, como a ideia de suspender o pagamento da dívida, em caso de catástrofe natural, muito defendida pela primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley.
Também está em discussão a ideia de um imposto internacional sobre transações financeiras, que tem poucas chances de se concretizar.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), representado por seu presidente, Ilan Goldfajn, e outras instituições regionais serão convidadas a aumentar sua capacidade de empréstimo, depois que o Banco Mundial anunciou que emprestará mais 50 bilhões de dólares (240 bilhões de reais na mesma cotação) durante a próxima década para os países que precisarem.
O novo presidente do Banco Mundial, Ajay Banga, estará em Paris, assim como a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva.
Entre as possíveis soluções, está a ideia de reciclar 100 bilhões de dólares (480 bilhões de reais na mesma cotação) em direitos especiais de saque, a moeda de reserva do FMI.
- Ambição e realidade -
"O mérito de um acontecimento como esse está em colocar muitos assuntos no centro das conversas internacionais e em tirá-los de sua área específica", disse Louis-Nicolas Jandeaux, da ONG Oxfam.
Jandeaux ressaltou, contudo, "a diferença entre a ambição inicial e a realidade".
Friederike Roder, da Global Citizen, uma organização internacional de combate à pobreza extrema, disse que um sinal animador na reunião de Paris seria os países ricos demonstrarem que são capazes de cumprir suas promessas.
Entre elas, está a de fornecer 100 bilhões de dólares (482,8 bilhões de reais, na cotação atual) por ano aos países mais vulneráveis para ajudá-los a reduzir emissões e se adaptar à mudança climática, uma meta estabelecida para 2020 que poderia ser cumprida este ano, com três anos de atraso.
E.Paulino--PC