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Revolução da neurotecnologia transforma ficção científica em realidade
Transformar os pensamentos diretamente em palavras, fazer pessoas paralíticas andar... Todos estes avanços já são possíveis graças à neurotecnologia, um campo de pesquisas que é tão revolucionário quanto a inteligência artificial (IA), mas que também pode trazer dilemas éticos.
"As pessoas não sabem até que ponto já estamos na ficção científica", explica à AFP Anne Vanhoestenberghe, pesquisadora do King's College de Londres.
A cientista chefia um laboratório que desenvolve dispositivos eletrônicos para serem implantados no sistema nervoso, que inclui não apenas o cérebro, mas também a medula espinhal, que transmite as mensagens cerebrais para o resto do corpo.
Trata-se da "neurotecnologia", um campo que, há vários anos, avança a passos largos. Segundo vários observadores e pesquisadores, é uma revolução científica tão importante quanto a IA, mas da qual se fala muito menos.
Alguns exemplos recentes ilustram a ascensão desta tecnologia.
Em junho, um artigo publicado na revista Nature explicou como, em um paciente portador da doença de Charcot, que afeta os nervos que conectam o cérebro e a medula espinhal ao resto do corpo, um implante cerebral desenvolvido por uma equipe californiana permitiu traduzir quase imediatamente seus pensamentos em palavras, mediante um software de síntese de voz.
Há vários anos, uma equipe suíça multiplica os experimentos que permitem aos paralíticos recuperar um controle importante de seus movimentos, até inclusive voltar a caminhar, graças à implantação de eletrodos em sua medula espinhal.
- Empresas emergentes -
Estes trabalhos ainda estão longe de restaurar todas as capacidades dos pacientes afetados. E também está em aberto como poderiam se generalizar para beneficiar mais pessoas.
Mas, "o público em geral não é consciente do que já existe", insiste Vanhoestenberghe. "Está mudando vidas", acrescenta.
Estes dispositivos são cada vez mais eficazes, garante a cientista.
"Antes eram necessárias milhares de horas de treinamento para que uma pessoa pudesse compor várias palavras com o pensamento", assinala. "Agora só são necessárias algumas poucas".
Como se explica este auge? Por uma mistura de avanços científicos, graças aos progressos na compreensão do cérebro, e melhorias tecnológicas, especialmente uma miniaturização cada vez mais avançada. A própria IA multiplicou as capacidades dos algoritmos utilizados.
O setor privado também tem demonstrado interesse neste setor. Desde o fim dos anos 2000, surgiram muitas empresas emergentes que arrecadaram dezenas de bilhões de dólares, o que agora se traduz em feitos concretos.
A mais midiática segue sendo o grupo Neuralink, do bilionário sul-africano Elon Musk, que, desde 2024, anunciou ter implantado seu dispositivo em uma dezena de pacientes. No entanto, os especialistas se mostram cautelosos sobre seu lado realmente inovador.
"Atualmente, a Neuralink vende fumaça com muitos anúncios", minimiza Hervé Chneiweiss, neurologista e especialista em ética do Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Medicina da França (INSERM).
No entanto, "no dia em que conseguirem fabricar produtos comerciais, e isso não vai demorar muito, será tarde demais para se preocupar", adverte.
- "Violação da privacidade" -
Estas tecnologias suscitam preocupações éticas importantes, sobretudo porque algumas empresas, a começar pela Neuralink, não pretendem limitá-las ao âmbito da saúde e já estão promovendo produtos que prometem melhorar as capacidades cognitivas de qualquer pessoa.
Neste contexto, a Unesco, a agência cultural da ONU, acaba de aprovar recomendações destinadas aos Estados Unidos no tema da regulação.
Estas recomendações entram em vigor nesta quarta-feira (12), embora não tenham caráter vinculante.
Os autores, entre os quais está Chneiweiss, adotaram uma definição muito ampla das neurotecnologias. Incluem dispositivos que já são comercializados, como relógios e capacetes conectados, que não agem diretamente no nosso cérebro, mas medem indicadores que dão uma ideia do estado mental do usuário.
"Atualmente, o principal risco é a violação da privacidade: nossa intimidade mental está ameaçada", alerta Chneiweiss. Ele deu como exemplo o risco de que os dados "caiam nas mãos do seu chefe, que vai considerar que o seu tempo de atenção não é adequado para a empresa".
Alguns países e regiões já abordaram o tema. Nos Estados Unidos, a Califórnia, centro mundial de pesquisas em neurotecnologia, aprovou, no fim de 2024, uma lei para proteger os dados cerebrais das pessoas, estabelecendo o mesmo marco que o dos dados de geolocalização.
G.M.Castelo--PC