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Vítimas de pornografia criada por IA veem Hong Kong despreparada para ameaça
A estudante de Direito 'C' acreditava que o uso da inteligência artificial (IA) para criar pornografia era uma ameaça distante, até que um colega de faculdade criou imagens dela e de várias outras mulheres.
"No início, fiquei atônita, depois senti pânico", comentou a jovem de 20 anos sobre a situação que provocou "uma ferida que deixará cicatriz".
C é uma das três mulheres que denunciaram em julho um escândalo de pornografia na universidade mais antiga de Hong Kong, o que provocou um debate sobre um fenômeno que parecia distante da cidade.
As vítimas, que conversaram com a AFP sob a condição de anonimato, e especialistas indicaram que a cidade não está preparada para enfrentar a ameaça.
No caso da Universidade de Hong Kong (HKU), centenas de imagens de pelo menos 20 mulheres foram encontradas no laptop do estudante.
'B', outra que se pronunciou, disse que se sentiu traída porque considerava o agressor um amigo.
"Sentia como se minha privacidade tivesse sido violada (...) como se não pudesse confiar nas pessoas ao meu redor".
A resposta inicial da universidade foi dar uma advertência ao aluno e obrigá-lo a pedir desculpas.
Uma terceira mulher, 'A', disse que um funcionário a informou que o caso não poderia ser levado a um comitê disciplinar.
"Estavam preocupados, mas não sabiam o que poderiam fazer (...) Consideramos um pouco ridículo", disse.
A HKU afirmou à AFP que "está em contato com os alunos envolvidos", mas que não poderia comentar mais porque o caso está sob revisão.
- Dano permanente -
O caso da HKU, no entanto, não é o primeiro que a cidade enfrenta.
Janice, uma mulher de cerca de 30 anos que pediu para usar um pseudônimo, disse à AFP que ficou devastada há alguns anos, quando imagens obscenas falsas foram enviadas aos seus amigos.
Ela nunca encontrou o responsável e teme que o dano "nunca termine".
"Eu faltava ao trabalho e não ousava sair à rua", contou Janice, ao recordar que chegou a pensar em suicídio.
"Não conseguia dormir porque tinha medo de acordar e ver toda a internet cheia de imagens (pornográficas) minhas".
A Associação de Combate à Violência Sexual contra Mulheres de Hong Kong recebeu 11 solicitações similares entre 2024 e 2025.
"Observamos um aumento (...) Alguns casos podem ficar ocultos se (as vítimas) não souberem como procurar ajuda", comentou a diretora executiva da entidade, Doris Chong.
- Forma de "violência sexual" -
Quase 90% das vítimas da pornografia por IA são mulheres, disse à AFP Susanne Choi, da Universidade Chinesa de Hong Kong, que considera as ações "uma forma de violência sexual".
A polícia afirmou não ter estatísticas sobre casos de pornografia com IA.
Legisladores e universidades devem "ampliar e revisar as leis existentes e os procedimentos para lidar melhor com o assédio sexual criado com tecnologia", argumentou Choi.
Há uma disposição crescente de punir a criação desse tipo de material, mas não há consenso sobre a posse, segundo o advogado de Hong Kong Stephen Keung.
A cidade pune a distribuição de "imagens íntimas", incluindo as geradas por IA, mas não sua criação ou posse.
A legislação dificultou a adoção de medidas legais no caso da HKU, uma vez que não havia evidências de que as imagens tenham circulado entre várias pessoas.
O órgão de proteção de dados de Hong Kong, no entanto, iniciou uma investigação criminal sobre o caso.
- Dignidade ferida -
As três estudantes afirmaram que precisaram lidar com reações negativas.
C, que era uma usuária ávida das redes sociais, parou de publicar por medo de que alguém utilize suas fotos.
"Muitos comentaram: 'Estão arruinando o futuro do cara, deveriam pedir desculpas a ele'", contou C.
O estudante não foi identificado e a AFP não conseguiu localizá-lo para comentar a acusação.
Segundo B, as três mulheres não querem julgar, mas acreditam que os responsáveis devem enfrentar consequências a longo prazo.
"A simples criação (de pornografia com IA) é um problema. Minha autonomia corporal, minha privacidade e minha dignidade foram prejudicadas", reclamou B.
"Temos que traçar uma linha desde a sua criação", afirmou.
A.Santos--PC