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Indígenas protestam contra exploração de rios amazônicos para exportação de grãos
Centenas de indígenas protestam há duas semanas em frente ao terminal portuário da gigante americana Cargill no Norte do país, contra a dragagem e exploração dos rios amazônicos para a exportação de grãos.
Comunidades indígenas alertam há meses para a expansão portuária em rios que consideram vitais para o seu modo de vida, uma queixa que fizeram na conferência climática COP30, no ano passado, em Belém.
"O governo vem abrindo os nossos territórios para muitos empreendimentos (...) para potencializar o agronegócio", disse à AFP a líder indígena Auricelia Arapiuns, em mensagem de vídeo desde Santarém. "Estamos aqui há 14 dias, mas esta luta não começou agora. Ocupamos a Cargill para chamar a atenção, para que o governo viesse com uma proposta."
Cerca de 700 indígenas, de 14 comunidades, participaram hoje da manifestação, segundo a organização Amazon Watch. Os manifestantes impediram a entrada e saída de caminhões do terminal, informou a Cargill à AFP, ressaltando que não tem "autoridade nem controle" sobre as reivindicações.
Com sede em Minnesota, a multinacional americana conta com operações de logística agrícola em todo o Brasil, onde emprega cerca de 11 mil pessoas.
Os manifestantes exigem a revogação de um decreto assinado por Lula em agosto passado, que designa os principais rios da Amazônia como prioritários para a navegação de carga e a expansão de portos privados. Também exigem o cancelamento de um edital de licitação federal publicado em dezembro para a gestão e dragagem do Rio Tapajós, um importante afluente do Amazonas.
“Essa infraestrutura que está vindo não é espaço para a gente, e nunca vai ser. É um projeto de morte, para matar o nosso rio e os nossos locais sagrados", denunciou a líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku.
O Ministério de Portos ressaltou em janeiro que o contrato com uma empresa para a dragagem de manutenção era necessário para aumentar a segurança da navegação e garantir maior previsibilidade nas operações de transporte de carga e passageiros.
- Riscos ambientais -
Os manifestantes criticaram o governo por enviar apenas funcionários do médio escalão para se reunir com eles, e por descumprir a promessa feita na COP30 de não implementar projetos em rios amazônicos “sem consulta prévia” às comunidades indígenas.
O Ministério dos Povos Indígenas ressaltou nesta semana que reconhece a legitimidade das preocupações, e que nenhuma dragagem ou outro projeto pode ser realizado no Rio Tapajós sem o consentimento da população afetada.
"Não queremos consulta, queremos revogar esse decreto", disse o líder indígena Gilson Tupinambá, em reunião com representantes do governo.
O Brasil é o maior exportador mundial de soja e milho, e optou nos últimos anos por portos fluviais no Norte, para baratear a exportação de grãos. Os críticos veem os planos para aumentar o tráfego nos rios amazônicos como mais um projeto em que o desenvolvimento econômico se choca com o compromisso de Lula com o meio ambiente.
"O que o governo fez depois da COP? Lançou o edital da dragagem!", disse Auricelia Arapiuns aos representantes do governo. Após a reunião, os manifestantes bloquearam a estrada que leva ao aeroporto internacional de Santarém.
O Ministério Público Federal, que empreendeu ações legais contra os trabalhos de dragagem, apontou ontem riscos ambientais graves para o rio. Em comunicado, mencionou a liberação de metais pesados na água e a destruição de habitats cruciais para espécies ameaçadas, como botos, tartarugas e aves aquáticas.
E.Ramalho--PC