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O que o futuro reserva à Opep após a saída dos Emirados Árabes Unidos?
A saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep e da Opep+ a partir de maio desperta dúvidas sobre o futuro do cartel liderado pela Arábia Saudita e tensiona ainda mais as relações entre os dois rivais do Golfo.
Embora não seja o primeiro país a abandonar a Opep é, com folga, o maior produtor de petróleo a fazê-lo, o que representa um duro golpe para a hegemonia do grupo e sua capacidade de regular os preços do petróleo e mitigar a crise.
- Qual foi o papel dos Emirados na Opep? -
Antes de o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz ter detido o fluxo de petróleo, os Emirados Árabes Unidos eram o quarto maior produtor da Opep+ e representavam 13% da produção da Opep.
Outros países, como Catar e Angola, já abandonaram o grupo, mas a saída dos Emirados Árabes Unidos supõe a perda mais importante para a Opep.
Em fevereiro, o país produziu 3,6 milhões de barris diários (mbd).
- Por que os Emirados estão saindo? -
Os Emirados Árabes Unidos estão há muito tempo frustrados com as cotas da Opep, liderada pela Arábia Saudita, que quer limitar a produção emiradense a 3,4 milhões de barris diários.
Abu Dhabi quer ampliar sua capacidade de produção para cinco milhões de barris diários até 2027.
O bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz lhe deu a oportunidade de deixar a Opep sem afetar os preços e também lhe permite se posicionar para obter uma cota de mercado assim que o Estreito for reaberto, afirmou Neil Quilliam, especialista em energia e geopolítica da Chatham House.
"A decisão de ir embora foi tomada há muito tempo, sendo assim era só questão de esperar o momento oportuno", avaliou.
Os Emirados não queriam ser limitados pelas cotas quando a crise em Ormuz chegar ao fim, disse à AFP uma fonte próxima ao Ministério da Energia emiradense.
Isso deixa evidente a existência de estratégias contrapostas entre os Emirados e a Arábia Saudita.
A economia emiradense, já diversificada, está melhor preparada para suportar os preços baixos do petróleo, enquanto a saudita depende em grande medida do petróleo para a receita do governo e para financiar a diversificação.
"A estratégia ótima dos Emirados Árabes Unidos para extrair o valor máximo da transição energética requer liberdade de produção, captura do crédito de carbono e independência geopolítica da política de preços", afirmou Nadim Koteich, comentarista libanês-emiradense, que no passado chefiou o canal Sky News Arabia. E "a arquitetura da Opep" não permite isso, acrescentou.
A receita adicional permitiria ao país intensificar seus investimentos em inteligência artificial e outros setores tecnológicos.
- O que ocorre na relação entre Emirados e Arábia Saudita? -
Segundo analistas, a decisão dos Emirados tensiona ainda mais as relações entre os dois países, que se deterioraram devido à crise do Iêmen.
Ambos os países têm desavenças sobre a política externa, a produção de petróleo e a guerra no Oriente Médio.
Os Emirados expressaram sua decepção com os aliados árabes pela guerra, inclusive a Liga Árabe, com sede no Cairo, mas também com o Conselho de Cooperação do Golfo, com base em Riade.
Os Emirados também adotam uma postura mais belicista sobre a guerra no Irã e a Arábia Saudita tem apoiado os esforços de mediação do Paquistão.
O ministro da Energia emiradense, Suhail Al Mazrouei, insistiu que a decisão "não foi política".
Mas os analistas acreditam que a medida aumentará a rivalidade.
"Sem dúvida, isto piorará ainda mais as relações entre Riade e Abu Dhabi. Não só vai intensificar a concorrência pela influência entre ambos no Mar Vermelho, mas também nos mercados energéticos", afirmou Quilliam, da Chatham House.
Um funcionário emiradense declarou à AFP que o país "revisa a relevância e a utilidade de seu papel e sua contribuição" nas organizações multilaterais, mas que "não considera nenhuma retirada".
- A medida terá consequências para o mercado? -
Enquanto a guerra no Oriente Médio continuar, o mercado não vai notar as exportações e de todo modo, a produção dos Emirados está limitada pelo bloqueio do Estreito de Ormuz. Além disso, os preços do petróleo seguem altos.
Assim que o Estreito for reaberto, o país poderia aumentar sua produção, o que contribuiria para que os preços baixem mais rapidamente.
Os Emirados "já têm uma capacidade sustentável de 4,3 (mbd) e o objetivo de aumentá-la a 5 mbd até 2027", explica Perrin.
Se os Emirados produzirem a plena capacidade, "o mercado perde um dos poucos amortecedores de choques que lhe restavam", explica Jorge León, analista da Rystad Energy. E a "estabilidade dos preços" dependerá ainda mais da Arábia Saudita.
M.Gameiro--PC