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Ucrânia acusa Rússia de executar centenas de prisioneiros de guerra desde 2022
Em sua última mensagem, o marido de Liudmyla Dubnytska a advertiu que provavelmente seria capturado pelas forças russas. Dois dias depois, ela o reconheceu em um vídeo de soldados ucranianos mortos divulgado nas redes sociais.
Seu companheiro, Andriy Dubnytsky, está entre as centenas de prisioneiros de guerra que, segundo o governo da Ucrânia, foram executados pelo Exército russo desde a invasão de 2022.
O número exato é desconhecido — varia de acordo com as fontes ucranianas e internacionais —, mas Kiev afirma que as execuções revelam uma política deliberada de Moscou.
Dubnytsky tinha 25 anos quando foi assassinado em fevereiro de 2024, quando as tropas ucranianas se retiravam da cidade de Avdiivka, epicentro dos combates no leste da Ucrânia, sob controle russo.
Ferido durante uma tentativa de retirada, o soldado da 110ª brigada permaneceu em sua posição com cinco companheiros, incluindo quatro que também estavam feridos.
Quando ligou para a esposa em 15 de fevereiro, "estava extremamente nervoso e chorava", conta Liudmyla, de 27 anos, à AFP. Para manter o ânimo, o casal prometeu ter um filho quando se reencontrasse, um irmão para sua filha pequena.
Horas depois, ele enviou uma mensagem dizendo que o grupo provavelmente seria capturado. Pouco depois, parou de responder.
Um vídeo divulgado pela imprensa ucraniana revela o que provavelmente ocorreu em seguida: seu colega no Exército, Ivan Zhytnyk, estava fazendo uma ligação de vídeo para um parente quando um soldado russo ordenou que entregasse as armas.
Dois dias mais tarde, Liudmyla assistiu a um vídeo nas redes sociais russas com cinco corpos estendidos e a marca de sangue. Ela reconheceu a tatuagem de uma cruz na mão de um dos homens: era seu marido.
- Aumento dos casos -
A 110ª brigada confirmou que vários soldados, entre eles Dubnytsky e Zhytnyk, foram assassinados e acusou as forças russas de violar um acordo para a retirada dos militares.
A Procuradoria ucraniana abriu uma investigação sobre o "assassinato de prisioneiros de guerra ucranianos desarmados". Não se trata de um incidente isolado.
Vários funcionários do governo ucraniano explicaram à AFP que, a partir de 2023, as tropas russas aumentaram o ritmo das "execuções".
"Isto se deve a uma política russa que, na prática, tem incentivado e facilitado este tipo de crime, e cujos comandantes têm dado ordens nesse sentido", declarou à AFP Andriy Atamantchuk, integrante da Procuradoria-Geral da Ucrânia e responsável por supervisionar as execuções de prisioneiros de guerra.
Moscou rejeita as acusações.
Um relatório da ONU divulgado no mês passado cita 129 execuções verificadas de prisioneiros de guerra ucranianos. A organização já havia alertado em 2025 sobre um "aumento expressivo" dos casos.
Kiev abriu 116 investigações sobre a morte de 306 militares ucranianos desde 2022, segundo Atamantchuk. Ele destaca, no entanto, que o número real é provavelmente muito maior.
Um funcionário do serviço de inteligência ucraniano afirmou à AFP que o país registrou "mais de 900 militares" mortos em "mais de 340" incidentes desde 2022. Sob a condição de anonimato, ele acrescentou que isso poderia representar "entre 25% e 40%" dos casos. As fontes explicaram que a diferença dos números se deve à metodologia.
A Procuradoria afirmou que se baseia em "fatos documentados e comprovados", enquanto os serviços de inteligência recebem "informações mais rapidamente" de unidades na linha de frente e de outras fontes.
As autoridades russas não responderam a um pedido da AFP para comentar as acusações. Moscou rejeita sistematicamente as acusações de crimes de guerra, ao mesmo tempo que acusa Kiev de cometer os crimes.
Nos termos das Convenções de Genebra, os soldados são considerados prisioneiros de guerra — com a concessão das proteções correspondentes — a partir do momento em que se rendem de forma inequívoca.
A Ucrânia afirma que, na maioria dos casos, as vítimas são assassinadas a tiros. Em 2023, um vídeo que viralizou nas redes sociais mostrava um soldado russo atirando em um militar ucraniano depois que este gritou "Glória à Ucrânia".
Até o momento, apenas cinco soldados russos foram condenados na Ucrânia — dois deles à revelia —, segundo o procurador Atamantchuk.
Mas ele não perde a esperança de fazer "justiça" às famílias, nem que seja apresentando "os nomes de quem matou seus entes queridos".
Dubnytska diz, sem conter as lágrimas, que conhecer a identidade do assassino de seu marido seria "inútil". "Não sei como isso me aliviaria, mesmo que algum dia eu soubesse quem fez isso".
E.Ramalho--PC