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Venezuelanos enfrentam pesadelo de perder suas casas pelos terremotos
Morela Luna aguarda ansiosamente a chegada de uma equipe de especialistas para inspecionar sua casa parcialmente desabada, da qual seus vizinhos tiveram que resgatá-la após o duplo terremoto de 24 de junho, que deixou mais de 3.600 mortos na Venezuela.
Luna morava com o marido e o filho de quatro anos no segundo andar desta casa no bairro La Lucha, em Catia la Mar, no estado de La Guaira. Seu pai morava no primeiro andar.
"Ainda acho que isso é um pesadelo. Gostaria de poder reconstruir minha casa. Cresci aqui e não quero perdê-la", diz a estudante de geografia de 23 anos, que dorme na casa da avó do companheiro à noite.
Engenheiros e arquitetos estão classificando as casas neste bairro de baixa renda, construídas pelos próprios moradores. Eles determinarão quais são seguras para morar — marcadas com um adesivo verde —, quais precisam de reparos (amarelo) e quais são perigosas e devem ser evacuadas (vermelho).
A casa de Luna é uma das desabadas em que eles nem sequer entrarão.
Em contraste, Juana Alfonzo, de 65 anos, ainda ocupa a sua residência, mesmo com o piso afundado e rachado e as colunas danificadas. Ela e cinco parentes dormem em barracas no quintal, com medo. Mas ela acredita que sua casa pode ser recuperada.
"Há muita gente chorando porque, claro, é uma perda total. Tantos anos construindo essas casas, para que elas desaparecessem em 39 segundos", diz Alfonzo sobre seus vizinhos, referindo-se aos fortes terremotos consecutivos de magnitude 7,2 e 7,5.
Ele ainda não sabe que a inspeção constatou que várias colunas de sua casa estão comprometidas e que ela não deve ser habitada, pois corre o risco de desabar. Alfonzo não receberá essa notícia da equipe de engenharia; em vez disso, uma equipe do governo virá mais tarde para informá-lo e colocar um adesivo vermelho na fachada.
Os pequenos espaços abertos do bairro La Lucha estão cheios de barracas de moradores que aguardam ansiosamente os reparos do governo em suas casas. Em algumas áreas, operários removem os escombros, mas até agora, nada além disso.
Muitos se lembram do deslizamento de terra de 1999 que deixou milhares de mortos neste estado e dezenas de milhares de desabrigados, alguns dos quais passaram anos em abrigos.
Gustavo, um mecânico de 60 anos que preferiu não revelar seu sobrenome, parecia preocupado. "Ninguém vai querer sair daqui", disse ele.
Os dois terremotos causaram o desabamento de 190 prédios e danificaram outros 856, segundo dados oficiais. Um levantamento da Nasa estima que o total possa chegar a 58.000.
- "Não quero uma demolição" -
Uma comissão presidencial para a habitação tem organizado oficinas de capacitação com o objetivo de preparar engenheiros e arquitetos para inspecionar edifícios danificados pelos terremotos.
Seu presidente, Francisco Garcés, que também é ministro dos Transportes, indica que cerca de 6.000 inspeções já foram realizadas.
"As fases de reparo e reabilitação virão a seguir", afirma. "Novas casas já estão sendo construídas, algumas estão quase concluídas e outras estão sendo reformadas para oferecer soluções àqueles cujas casas foram completamente destruídas", diz à AFP.
Em Los Palos Grandes, uma das áreas de classe média mais caras de Caracas e que registrou os maiores danos, três moradores observam com preocupação a placa vermelha que foi colocada em seu prédio.
"Quem fez essa inspeção e com quais qualificações?", reclama uma moradora, irritada. "Moro aqui há 40 anos, não quero uma demolição", ressalta outra mulher.
P.Sousa--PC